segunda-feira, 30 de março de 2015

Lição Adultos - “A quem darás o nome de João”

Por quase 400 anos, depois de Malaquias, o silêncio divino marcou a história de Israel. Com o anúncio do nascimento de João Batista e de Jesus o silêncio divino estava prestes a ser quebrado.

As histórias do nascimento de João e de Jesus têm paralelos. Os dois nascimentos são milagres: no caso de João, Isabel já tinha passado havia muito tempo da idade de ter filhos; no caso de Jesus, uma virgem teria um filho. O anjo Gabriel anunciou as duas promessas de nascimento. Ambos os anúncios foram recebidos com assombro, alegria e entrega à vontade de Deus. Os dois bebês cresceriam e se fortaleceriam no Espírito (Lc 1:80; 2:40).

Mas a missão e o ministério desses dois bebês miraculosos seriam distintos e diferentes. João deveria preparar o caminho para Jesus (Lc 1:13-17). Jesus era o “Filho de Deus” (v. 35) e o cumprimento das profecias messiânicas (v. 31-33).

2. Leia Lucas 1:5-22. Embora seja dito que Zacarias andava “irrepreensivelmente”, sua falta de fé no anúncio do anjo motivou uma repreensão. Como isso nos ajuda a compreender o significado da palavra “irrepreensível” quando aplicada a alguém que crê em Jesus?

“O nascimento de um filho a Zacarias, como o do filho de Abraão, e o de Maria, visava a ensinar uma grande verdade espiritual, verdade que somos tardios em aprender e prontos a esquecer. Somos por nós mesmos incapazes de fazer qualquer bem; mas o que não somos capazes de fazer, o poder de Deus há de operar em toda pessoa submissa e crente. Por meio da fé foi dado o filho da promessa. Mediante a fé é gerada a vida espiritual, e somos habilitados a realizar as obras da justiça” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 98).

O milagre de João teve um propósito importante no trato de Deus para com Seu povo. Depois de 400 anos de ausência profética na história de Israel, João apareceu nessa história com uma mensagem específica e com poder decisivo. A missão e a mensagem de João era “deixar um povo preparado para o Senhor” (Lc 1:17, NVI). Ele devia ser o precursor do Messias, aquele que prepararia o caminho para a missão de Jesus.

Ore por decisões que serão tomadas durante a Semana Santa e participe hoje da reunião mais próxima de sua casa.

Lição de Jovens - O povo da esperança

O Deus do impossível (Lc 1:5-17, 37). Após a entrada do pecado, Deus prometeu a Adão e Eva que Ele restauraria o relacionamento interrompido pela má escolha deles (Gn 3:15). Tal restauração é impossível de ser realizada por nós, então faz sentido que Deus ofereça a solução para esse problema. Afinal de contas, para Ele, “nada é impossível” (Lc 1:37). Isabel e Zacarias experimentaram uma impossibilidade em sua vida. Eles eram um casal honesto e dedicaram sua vida a Deus. No entanto, não tiveram filhos. Mas Deus tinha um plano para eles. Ele abençoou esse casal com um filho, que preparou “o caminho para o Senhor” (Is 40:3). Sobre esse filho foi derramado o Espírito Santo porque tarefas impossíveis exigem uma grande porção do poder dado por Deus.

Às vezes, esquecemos (Lc 1:18). É interessante que, apesar de Zacarias ser “justo aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor” (Lc 1:6), ele duvidou da Sua promessa. Após tudo o que ele experimentou com Deus e de Deus, ainda questionou se o Senhor poderia dar um filho a ele e a sua esposa já idosa. Em vez de confiar no Deus do impossível, ele colocou o foco na situação impossível. Parece que isso também ocorre em nossa vida. Todos nós temos sido abençoados por Deus, e talvez muitos de nós já tenhamos testemunhado Deus fazer coisas impossíveis em nossa vida. Durante esses momentos, nós O louvamos, e nossa fé parece ótima. Contudo, após algum tempo, tendemos a esquecer essas experiências maravilhosas e continuamos a duvidar de que no futuro Ele possa realizar coisas impossíveis.

Profecia cumprida (Mq 5:2; Lc 2:4-7). Imagine Maria e José segurando o bebê Jesus pela primeira vez. Imagine a alegria que sentiram ao saber que o Salvador tinha nascido naquele dia! Provavelmente, não compreenderam plenamente quem era Aquele que eles ninavam em seus braços. Deus salvou nosso mundo caído por meio daquele pequeno Bebê. Maria e José sem dúvida haviam escutado sobre a profecia do Messias vindouro: “Mas tu, Belém-Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para Mim Aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos” (Mq 5:2).

Muito provavelmente, haviam aguardado com ansiedade Sua chegada, e talvez tivessem experimentado algumas das mesmas dúvidas que Zacarias sentiu quando o anjo lhe disse que ele teria um filho, apesar da idade avançada. Deus estava fazendo algo impossível, mas esse nascimento era apenas o início do plano divino da salvação.

Espera fiel (Lc 2:25-32; Ap 14:6, 7). Esperar é algo de que ninguém gosta porque exige uma grande dose de paciência. No entanto, em Lucas 2, aprendemos sobre Simeão, um homem que dedicou sua vida a esperar. A Bíblia nos diz em Lucas 2:25 que esse “homem [...] era justo e piedoso, e que esperava a consolação de Israel”. Simeão passou seus dias esperando o nascimento do Salvador! Seu único desejo era ver a salvação do Senhor. Após isso, poderia morrer em paz.

Pense nisso. Estamos vivendo realmente como se estivéssemos esperando Jesus retornar? Ou estamos tão sobrecarregados pelos cuidados deste mundo que os assuntos espirituais se tornam secundários em nossa vida? Simeão sabia o que era importante. Ele sabia que nada no mundo era mais importante do que esperar o Salvador. Assim que o Espírito Santo o levou ao templo, ele se regozijou sabendo que poderia contemplar sua Salvação! Simeão também destacou algumas verdades importantes ao abençoar Jesus: (1) a salvação só é possível por intermédio de Cristo (verso 30), (2) a salvação é dádiva de Deus (verso 31) e (3) a salvação está disponível para todos (verso 31).

Essas mesmas verdades se aplicam a nós. Não mais estamos esperando o Messias. Estamos aguardando a segunda vinda de Jesus. Nós também temos uma mensagem para todas as pessoas. Na verdade, essa mensagem é uma das crenças fundamentais da Igreja Adventista. Apocalipse 14:6, 7 diz: “Vi outro anjo, que voava pelo céu e tinha na mão o evangelho eterno para proclamar aos que habitam na Terra, a toda nação, tribo, língua e povo. Ele disse em alta voz: ‘Temam a Deus e glorifiquem-nO, pois chegou a hora do Seu juízo. Adorem Aquele que fez os céus, a Terra, o mar e as fontes das águas’” (Ap 14:6, 7). Devemos compartilhar essa mensagem com todos, não importa quem eles sejam, porque Jesus ama a todos.

Falar aos outros sobre o Salvador resulta em reconciliação entre Deus e a humanidade, uma reconciliação que Deus prometeu em Gênesis 3:15. Sim, precisamos esperar que Jesus retorne, mas que tipo de pessoas estamos nos tornando enquanto aguardamos? Estamos nos tornando mais semelhantes ao Salvador ou ao mundo? Estamos revelando o amor de Jesus aos outros? Estamos amando mais aos outros?

Ao você refletir sobre o grande amor de Deus, considere o que você fará enquanto espera o retorno do seu Salvador.

domingo, 29 de março de 2015

Lição Adultos - “Uma exposição em ordem” (Lc 1:1-3; At 1:1-3)

Atos 1:1 nos diz que, antes que esse livro fosse escrito, seu autor escreveu “o primeiro livro”. Isso, além do fato de que ambos os relatos foram endereçados a Teófilo, nos ajuda a concluir que um só autor foi o responsável por ambos os livros. Os dois relatos podem ser considerados a parte 1 e a parte 2 da “Origem e História da Igreja Cristã”. A parte 1 é uma narrativa da vida e obra de Jesus (o Evangelho de Lucas) e a parte 2 (Atos dos Apóstolos) é um relato da propagação da mensagem de Jesus e da igreja primitiva.

1. Como o Evangelho de Lucas foi escrito? Leia Lucas 1:2, 3 e 2 Timóteo 3:16.

Lucas tinha conhecimento de muitos que haviam escrito sobre os eventos que abalaram tanto a cidade de Jerusalém como outros locais além de suas fronteiras: os eventos relativos a Jesus Cristo. As fontes de tais obras literárias incluíam muitas “testemunhas oculares e ministros da Palavra” (Lc 1:2) – uma clara referência aos discípulos e a outros contemporâneos de Jesus. O próprio Lucas teve contato com essas testemunhas e ministros (como Paulo e outros líderes apostólicos), e possivelmente também com os evangelhos escritos por Marcos e Mateus. Lucas, obviamente, não foi uma testemunha ocular da história de Jesus, mas foi um autêntico converso a Cristo, digno de confiança.

Mateus escreveu para um público judeu, apresentando Jesus como o grande mestre, o cumprimento das profecias e o rei dos judeus. Referiu-se muitas vezes a profecias do Antigo Testamento que se cumpriram em Cristo. Marcos escreveu para um público romano sobre Jesus como um homem de ação. Lucas, um médico gentio, escreveu para os gregos e os gentios sobre Jesus como uma figura universal – o Salvador do mundo. Lucas mencionou que seu propósito ao escrever era duplo: apresentar uma “exposição em ordem” (Lc 1:3) e mostrar a certeza dos grandes ensinos desse novo tempo. Um dos objetivos de seu evangelho é proporcionar certeza sobre a verdade tal qual é em Jesus.

Lucas, escritor bíblico inspirado, usou material de outras pessoas em seus escritos. Obviamente, esse uso de outras fontes não nega a inspiração nem a autoridade do que ele escreveu. Que lições isso deve ter para nós, como adventistas do sétimo dia, com respeito à questão de como a inspiração, canônica ou não canônica, atua nos escritores inspirados?

Ele viveu por você! Esse é o tema de hoje no programa da Semana Santa. Abra sua casa ou participe em algum pequeno grupo.

Comentário - O evangelho de Lucas

O elevado estilo linguístico do Evangelho de Lucas revela a capacidade intelectual de seu autor. Provavelmente escrito até 63 d.C., ele tinha como alvo, em especial, leitores gregos. Não é em vão que, em Lucas, Cristo é apresentado como o Amigo da Humanidade, que está “em contato íntimo com as necessidades humanas, enfatizando o lado humano de Sua natureza”.2

O Evangelho de Lucas revela o Salvador compassivo e amoroso que não tolera o preconceito em qualquer de suas formas, seja racial, social ou mesmo religioso. Ele se relaciona em todas as facetas diárias com aqueles que a elite social e religiosa israelita ou romana nem sequer ousava tocar. Por isso, não seria exagero afirmar que em Lucas 19:10 encontramos o resumo mais apropriado da obra do Salvador: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.”

A partir do prefácio de Lucas (1:1-4) também é possível inferir que sua tarefa era oferecer a seus contemporâneos “um relato da história de Jesus capaz de habilitá-los a ver que a história com a qual eles tinham parcialmente se familiarizado era uma base confiável para sua fé”.3 Isso mostra que, em seu lugar adequado, as evidências podem desempenhar um papel muito importante em nosso crescimento espiritual.

Além disso, muitos poderiam questionar como a revelação e inspiração podem se encaixar na “acurada investigação” (1:3) que resultou na obra de Lucas, o que pode parecer um tanto quanto “secular” ou “profano” para alguns. Contudo, Lucas nos ajuda a entender que Deus é capaz de Se comunicar tanto mediante formas significativas criadas por Ele miraculosamente como por aquelas criadas de maneira invisível quando Ele fez uso de objetos, documentos e circunstâncias aparentemente comuns.4

De fato, Deus pode falar muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1:1, 2). Ao longo da Bíblia podemos discernir muitos padrões reveladores. Por exemplo, o padrão teofânico no qual o próprio Deus fala diretamente ao profeta e o padrão profético, no qual Deus usa sonhos e visões para Se comunicar. Como o prefácio revela, Lucas produziu seu evangelho pelo padrão histórico. Qualquer que seja o envolvimento humano na revelação, mesmo aquele mais direto como em Lucas, Deus está em constante controle e supervisão do trabalho editorial ou mesmo da seleção das fontes orais e escritas. Portanto, esse controle divino alcança tanto o pensamento quanto as palavras do profeta. Não obstante, a atuação divina sempre levou em conta a individualidade de cada autor bíblico. É exatamente por isso que a Bíblia pode ser considerada uma obra divino-humana. Ambas as dimensões sempre estão relacionadas inseparável e miraculosamente como acontece na natureza divino-humana de Cristo.5

Vale lembrar que a obra de Lucas é mais do que história sagrada. Do ponto de vista teológico e literário, o livro é um evangelho, ou seja, “uma apresentação do ministério de Jesus a partir de seu significado savífico”.6 De fato, por meio da inspiração Lucas, que era médico de homens (Cl 4:14), passou a ser também médico de almas.

Lição Jovens - Poder à nossa disposição

O mapa da maior fonte de poder do Universo está em um par de óculos, gravado em uma de suas lentes. Desconhecendo seu valor, o proprietário leiloa o objeto, on-line, por qualquer preço. No entanto, isso não passa desapercebido, porque, fora da atmosfera da Terra, um grupo de Transformers toma conhecimento do leilão e decide roubar os óculos para se apossar dessa fonte de poder. Nada conseguirá impedi-los nem fará com que abandonem a missão, nem mesmo a realidade da morte. O plano deles é dominar e governar o Universo.*

Esse episódio do filme Transformers me faz lembrar que tenho mais de um par de óculos. Um fica na escrivaninha, outro na mesa de centro da sala e, por precaução, também carrego um par comigo. Mas apesar disso, muitas vezes não tenho seguido as instruções que me levariam a encontrar a verdadeira fonte de poder – Jesus.

Lucas começou sua narrativa mencionando Teófilo, seu colaborador. O evangelista desejava que ele tivesse convicção das coisas que ali seriam relatadas (Lc 1:4). Muitos foram levados a compreender as Escrituras através da visão cultural, emocional ou mesmo intelectual, uma prática repetida em nossa geração. O impacto do ministério de Jesus sobre Lucas foi tamanho que ele decidiu investigar “tudo cuidadosamente, desde o começo” (Lc 1:3), a fim de escrever em ordem cronológica tudo o que havia acontecido.

As lentes dos nossos óculos humanos têm gravadas nelas a pessoa de Jesus – a maior fonte de poder conhecida no Universo.
Colossenses 2:9, 10 declara que “em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” e que Ele é “o Cabeça de todo poder e autoridade”. Ao contemplar isso, vejo que preciso passar mais tempo me apoderando do poder que reside em Cristo. Se fizéssemos isso, poderíamos transformar nossa comunidade, poderíamos transformar o mundo. Porque para nós nasceu um Salvador – o Filho de Deus.

* Transformers, filme dirigido por Michael Bay, 2007.

sábado, 28 de março de 2015

Comentários

Você já perguntou por que foram escritos quatro evangelhos? Se eles fossem unidos harmoniosamente sendo retiradas as histórias duplicadas e as pequenas dessemelhanças teríamos uma história mais compreensível da vida de Cristo. Contudo, não foi assim que ocorreu. Mas, à medida que lemos os evangelhos podemos perceber a razão.

Os evangelhos são mais do que meras biografias de Jesus. Por meio deles, o “Espírito Santo tem fotografado o Senhor Jesus de quatro diferentes ângulos”.1 Embora reconheçamos com o apóstolo João em seu evangelho que, se todas as coisas que Cristo fez fossem registradas, nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos (21:25), os quatro evangelhos nos proporcionam um retrato mais completo do Salvador. Neste trimestre teremos a alegria de explorar o encantador retrato de Cristo conforme registrado no evangelho de Lucas.

O evangelho de Lucas

O elevado estilo linguístico do Evangelho de Lucas revela a capacidade intelectual de seu autor. Provavelmente escrito até 63 d.C., ele tinha como alvo, em especial, leitores gregos. Não é em vão que, em Lucas, Cristo é apresentado como o Amigo da Humanidade, que está “em contato íntimo com as necessidades humanas, enfatizando o lado humano de Sua natureza”.2

O Evangelho de Lucas revela o Salvador compassivo e amoroso que não tolera o preconceito em qualquer de suas formas, seja racial, social ou mesmo religioso. Ele se relaciona em todas as facetas diárias com aqueles que a elite social e religiosa israelita ou romana nem sequer ousava tocar. Por isso, não seria exagero afirmar que em Lucas 19:10 encontramos o resumo mais apropriado da obra do Salvador: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.”

A partir do prefácio de Lucas (1:1-4) também é possível inferir que sua tarefa era oferecer a seus contemporâneos “um relato da história de Jesus capaz de habilitá-los a ver que a história com a qual eles tinham parcialmente se familiarizado era uma base confiável para sua fé”.3 Isso mostra que, em seu lugar adequado, as evidências podem desempenhar um papel muito importante em nosso crescimento espiritual.

Além disso, muitos poderiam questionar como a revelação e inspiração podem se encaixar na “acurada investigação” (1:3) que resultou na obra de Lucas, o que pode parecer um tanto quanto “secular” ou “profano” para alguns. Contudo, Lucas nos ajuda a entender que Deus é capaz de Se comunicar tanto mediante formas significativas criadas por Ele miraculosamente como por aquelas criadas de maneira invisível quando Ele fez uso de objetos, documentos e circunstâncias aparentemente comuns.4

De fato, Deus pode falar muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1:1, 2). Ao longo da Bíblia podemos discernir muitos padrões reveladores. Por exemplo, o padrão teofânico no qual o próprio Deus fala diretamente ao profeta e o padrão profético, no qual Deus usa sonhos e visões para Se comunicar. Como o prefácio revela, Lucas produziu seu evangelho pelo padrão histórico. Qualquer que seja o envolvimento humano na revelação, mesmo aquele mais direto como em Lucas, Deus está em constante controle e supervisão do trabalho editorial ou mesmo da seleção das fontes orais e escritas. Portanto, esse controle divino alcança tanto o pensamento quanto as palavras do profeta. Não obstante, a atuação divina sempre levou em conta a individualidade de cada autor bíblico. É exatamente por isso que a Bíblia pode ser considerada uma obra divino-humana. Ambas as dimensões sempre estão relacionadas inseparável e miraculosamente como acontece na natureza divino-humana de Cristo.5

Vale lembrar que a obra de Lucas é mais do que história sagrada. Do ponto de vista teológico e literário, o livro é um evangelho, ou seja, “uma apresentação do ministério de Jesus a partir de seu significado savífico”.6 De fato, por meio da inspiração Lucas, que era médico de homens (Cl 4:14), passou a ser também médico de almas.

O precursor do Messias

Apesar de um período tão grande entre Malaquias e Lucas, o nascimento e obra de João Batista já haviam sido preditos no Antigo Testamento. Nos últimos dois versos do Antigo Testamento Deus deixou a promessa: “Eu vos enviarei o profeta Elias”(Ml 4:5, 6). Claramente, desde o anúncio de seu nascimento (Lc 1:17), até mesmo nas declarações de Cristo (Mt 17:12), João Batista cumpriu essa profecia. A prática do batismo para arrependimento (Mt 3:11) pode ser uma indicação de que ele converteria “o coração dos pais aos filhos, e dos filhos aos pais” (Ml 4:6), conforme Malaquias havia predito.

A relação entre a profecia de Malaquias e João Batista demonstra que a história não terminaria em Malaquias 4:6. A última palavra do Antigo Testamento, registrada nesse verso é “maldição” (herem). Essa não seria a palavra final. A história termina no último verso de Apocalipse com “a graça do nosso Senhor Jesus” (Ap 22:21). A missão de João era anunciar a manifestação dessa graça, a chegada da salvação.

Para isso, Deus enviaria o maior “entre os nascidos de mulher” (Lc 7:28). Com um estilo de vida simples, mas com autoridade de uma vida coerente, João Batista relembrava o ministério de seu antecessor tipológico, o Elias do Antigo Testamento. Como a geração para a qual Elias pregou, os contemporâneos de João não poderiam ficar neutros. Não seria possível “coxear entre dois pensamentos” (1Rs 18:21). Como nas palavras de Simeão, o Cristo seria alvo de contradição, quer para levantamento ou ruína (Lc 2:34).

O Messias que ninguém esperava

Diferente de todos os profetas que o antecederam, João Batista pôde ver o cumprimento final de sua pregação. Jacó profetizou sobre o Rei universal (Gn 49:10), Moisés falou de “um Profeta” a quem todos ouviriam (Dt 18:18), Balaão viu a “estrela que procederia de Jacó” (Nm 24:7), o salmista vislumbrou o Filho do Altíssimo ungido como Rei (Sl 2:6) e Isaías viu o Servo sofredor que morreria em nosso lugar (Is 53:4-6). No entanto, João Batista obteve de Cristo a certeza de que não era mais necessário esperar (Mt 11:3-5). O Messias havia chegado!

Mas surpreendentemente poucos estavam preparados, apesar da clareza das profecias, mesmo quanto ao tempo (Dn 9:24-26) e lugar (Mq 5:2) do nascimento do Messias. As pessoas daquele tempo haviam criado seus próprios “messias”, seus próprios estereótipos de glória, honra, sucesso e poder. E suas expectativas não combinavam com o Homem nascido na manjedoura, outro nome para um cocho. Não havia lugar para um messias que nem a hospedaria queria receber.

Esse é o Messias apresentado por Lucas. O Messias que conhece a pobreza por experiência própria. O início humilde dAquele que fundaria um reino eterno era em si mesmo uma pedra de toque. Seu ministério em grande medida foi voltado aos pobres a quem chamou bem-aventurados (Lc 6:20). Quem não se surpreenderia com um Messias assim? A lista oferecida por Lucas indicando aqueles que estavam preparados para esse grande evento é quase escandalosa: uns poucos pastores e dois idosos. Evidentemente, ela não é exaustiva, mas por sua representação ela pode dizer muito.

A menção dos pastores é surpreendente. Verdadeiramente, o evangelho em Lucas desconsidera os estereótipos sociais e religiosos. Embora ao longo da Bíblia os pastores que cuidavam de rebanhos sejam vistos sob luz favorável7, em geral, para os leitores do evangelho na época eles eram considerados desonestos e impuros, de acordo com os padrões cerimoniais da lei.8 Eles representam os proscritos e pecadores para os quais Jesus veio. Foram os primeiros recebedores das boas-novas (euangelion), termo que aparece onze vezes no Novo Testamento, sendo dez vezes apenas em Lucas. Não obstante, tudo indica que, apesar das aparências, esses eram homens devotos e provavelmente familiarizados com as profecias messiânicas, como os dois personagens seguintes.9

Nada é mencionado sobre Simeão, a não ser sua condição espiritual. Ele foi justo e piedoso, títulos reservados para poucos na literatura bíblica. Contudo, mais importante do que isso, ele vivia “na esperança de que a promessa de Deus se cumpriria”.10 Ele aguardava a consolação de Israel, termo que aparece constantemente em conexão com a obra do Servo do Senhor (Is 40:1; 49:13; 51:3; 57:18; 61:2). Os rabis posteriormente se refeririam ao Messias como Menahem, o Consolador. Importante na descrição é a influência do Espírito Santo sobre ele. O Espírito o impeliu ao templo e o capacitou a ver além das aparências, pois o indefeso bebê daquele humilde casal era o salvador de Israel e fonte de luz para os gentios. As palavras de Simeão demonstram que suas expectativas não estavam distorcidas. Ele revelou uma consciência da missão e obra do Messias que não mais aparece no evangelho de Lucas. Nem mesmo é encontrada em João Batista (Lc 7:19) nem nos discípulos mais íntimos de Cristo até Sua morte.

A última testemunha do nascimento de Cristo em Lucas é a profetisa Ana. Diferentemente de Simeão, muitos detalhes sobre sua identidade são fornecidos, talvez porque, devido à sua conhecida reputação, seu encontro com Jesus seria importante para os leitores daqueles dias. Sua avançada idade (alguns calculam em torno de 105, considerando que tenha se casado aos 14, com mais 7 de casamento e 84 de viuvez) atesta para sua paciência em esperar o cumprimento da redenção de Israel. O silêncio total de Lucas sobre qualquer personagem dignitário na chegada do Messias pode falar ainda mais alto do que a menção dos anônimos pastores ou desses dois idosos.

Conclusão

Algumas verdades saltam aos olhos no início do evangelho de Lucas. Em primeiro lugar, a salvação é uma iniciativa divina. O ser humano depende inteiramente de um poder sobrenatural. O nascimento virginal só confirma esse fato. Em segundo lugar, a iniciativa divina requer uma resposta humana. Às vezes, tal resposta implica perigo, como foi o caso de Maria. Não era incomum em sua época mulheres recorrerem a gestações “divinas” para explicar relações sexuais ilícitas. Em terceiro lugar, a percepção do cumprimento das promessas divinas veio para quem estava pronto a ouvir. Em outras palavras, conhecimento bíblico ou doutrinário sem discernimento espiritual não tem valor. Ambos são necessários. No segundo capítulo de Lucas, os doutores podiam apenas admirar-se da inteligência e das respostas (v. 47) daquele pobre e desconhecido galileu, pois Ele sequer havia frequentado suas escolas. Isso encerra uma importante lição para os que aguardam a consumação das promessas divinas, na segunda vinda de Cristo, e o estabelecimento do reino que Cristo inaugurou: Precisamos de discernimento espiritual para interpretar o tempo em que vivemos. Por fim, não há lugar no evangelho para estereótipos preconceituosos. Não é posição nem tradição que nos tornarão “prontos”, mas nossa ligação com Deus pela guia do Espírito Santo.


Referências:

1. PINK, A. W. Why Four Gospels?. Swengel: Bible Truth Depot, 1921.
2. NICHOL, F. D. (Org.). The Seventh-day Adventist Bible Commentary. Hagerstown: Review and Herald Publishing Association, 1980. p. 664.
3. MARSHALL, I. H. The Gospel of Luke: a commentary on the Greek text. Exeter: Paternoster Press, 1978. p.35.
4. CANALE, Fernando. O princípio cognitivo da teologia cristã: um estudo hermenêutico sobre reveleção e inspiração. Tradução de Neumar de Lima. 1. ed. São Paulo: UNASPRESS, 2011. 
5. WHITE, Ellen G. O Grande Conflito: entre Cristo e Satanás. 43. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2010. p.7-9. 
6. MARSHALL, 1978, p. 35.
7. BOCK, D. L. Luke: 1:1–9:50. v. 1 Grand Rapids: Baker Academic, 1994. p. 213.
8. STEIN, R. H. Luke. v. 24. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1992. p. 108.
9. HENDRIKSEN, W., & KISTEMAKER, S. J. Exposition of the Gospel According to Luke. v. 11. Grand Rapids: Baker Book House, 2001. p.149.

10. BOCK, 1994, p. 238.

A primeira vinda de Jesus

VERSO PARA MEMORIZAR: “Para Deus não haverá impossíveis” (Lc 1:37).

O evangelho de Lucas foi escrito primariamente para os gentios. O próprio Lucas era gentio (como está implícito no contexto de Colossenses 4:10-14), e o mesmo se pode dizer de Teófilo, a quem o evangelho foi endereçado.

Além de ser médico, Lucas era um historiador meticuloso. Na introdução do evangelho, ele localizou Jesus na história real, isto é, colocou a narrativa dentro do contexto histórico da época: Herodes era o rei da Judeia (Lc 1:5), César Augusto reinava sobre o Império Romano (Lc 2:1) e um sacerdote cujo nome era Zacarias estava cumprindo seu turno no templo de Jerusalém (Lc 1:5, 9). No capítulo 3, Lucas mencionou seis datas contemporâneas relacionadas ao ministério de João Batista, o precursor de Jesus.

Assim, Lucas colocou a história de Jesus dentro da História, com pessoas reais e no tempo real, para afastar de sua narrativa qualquer ideia mitológica. Seus leitores devem ficar maravilhados com o fato de que Jesus é real e de que, por meio dEle, Deus invadiu a História com “o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2:11).