Autor: Pr. Jônatas Leal
Revisão: Josiéli Nóbrega
Introdução
Há uma longa história de debate sobre quem foi Jesus. Na verdade esse mesmo debate foi igualmente desenvolvido dentro do judaísmo que antecedeu o primeiro século. Apenas a perspectiva era diferente: quem seria o Messias? Como Ele viria? E foram exatamente as expectativas equivocadas que levaram em grande medida muitos a rejeitar Jesus como o Messias. Por isso, a questão não é periférica. Deve-se reconhecer que, atualmente, não há menos ideias equivocadas sobre Cristo do que havia no tempo de sua primeira vinda. Pelo contrário, o tempo serviu de incubadora para tais ideias.
De fato, Jesus dividiu a História. Mas não apenas isso, dividiu as pessoas em dois grupos. Hoje não é diferente. Diante de Jesus não é possível a neutralidade. Nesta semana, temos a oportunidade de refletir sobre a importante questão de quem foi Jesus através do evangelho de Lucas. Contudo, mais do que conhecer a verdade sobre esse personagem que mudou a História, sempre será indispensável ponderar sobre o que isso significa para nós.
“Mas vós, quem dizeis que Eu sou?”
De fato, “a influência titânica desse Homem fez dEle um grande alvo das flechas do criticismo e o objeto supremo de revisão de acordo com os preconceitos do intérprete.1 Curiosamente, depois de tantos anos, “o que os eruditos descobriram por trás do véu foi um Jesus criado às suas próprias imagens, segundo seus próprios preconceitos. Os liberais do século 19 descobriram um Jesus ‘liberal’; os existencialistas descobriram um herói existencialista, e os marxistas descobriram um revolucionário político. Idealistas descobriram um idealista e os pragmáticos descobriram um Cristo pragmático”.2
Assim, a resposta à pergunta “mas vós quem dizeis que Eu sou?” tem um lado objetivo e outro subjetivo. Do ponto de vista objetivo, é importante levar em consideração aquilo que a revelação divina, por meio das Escrituras, revela acerca de Cristo. Muitos estão sinceramente enganados sobre quem foi Cristo porque levam em conta apenas suas próprias ideias preconcebidas, sem parar para ouvir o que a palavra de Deus revela sobre Sua identidade. Desse modo, criam seus próprios “messias” exatamente como fizeram muitos dos contemporâneos de Cristo.
Do ponto de vista subjetivo, devemos sempre refletir sobre o que Jesus significa para nós, individualmente, qual é o impacto disso em nossa vida. O conhecimento objetivo de Cristo por si não pode causar transformação. O termo “conhecer” nos evangelhos, principalmente em João, está intimamente ligado ao relacionamento entre o discípulo e o mestre. Contudo, se apenas a experiência e o relacionamento forem levados em conta, podemos ter uma ideia distorcida e equivocada sobre Jesus. Para isso, precisamos da revelação divina objetiva em Sua Palavra. Tudo que sabemos sobre Deus e a salvação depende do que Ele mesmo revela sobre Si. Uma das formas mais eficazes de aprender sobre a pessoa de Cristo é prestar atenção aos títulos que os evangelhos Lhe conferem e como Ele Se relacionou com os mesmos.
Os títulos de Jesus nos evangelhos
A resposta dos discípulos em Lucas 9:18 revela as diferentes concepções sobre Cristo em Sua época: um antigo profeta, Elias e mesmo João Batista ressurreto. Poderíamos passar anos estudando os muitos títulos atribuídos a Jesus nas Escrituras: Profeta, Servo Sofredor, Sumo Sacerdote, Verbo, Senhor, Mestre, Filho de Davi, Cordeiro de Deus, Salvador, Lírio dos Vales, Leão da Tribo de Judá, etc. A lista ainda se estenderia muito. Contudo, não há espaço aqui para isso. Então, nos deteremos apenas naqueles que estamos estudando nesta semana: Filho de Deus, Filho do homem e Cristo (Messias).
O título “Filho de Deus” ocorre trinta e sete vezes no Novo Testamento para designar a pessoa de Jesus3, e aponta dois aspectos: Sua submissão ao Pai ao cumprir Sua missão de salvar o mundo e Seu relacionamento único com Ele. O título deve ser entendido à luz do seu contexto. No início do século 4 d.C. alguns, liderados por Ário, interpretaram o título como uma evidência de que Cristo possuía uma pré-existência limitada e que em algum momento da eternidade Ele teria sido gerado pelo Pai.
Contudo, o título quer dizer exatamente o contrário. De fato, “este é um título de natureza e não de ofício. A filiação de Deus denota Sua igualdade com o Pai. Chamar Cristo ‘o Filho de Deus é afirmar Sua verdadeira divindade”.4 O termo aramaico bar (filho) é muitas vezes usado em sentido figurado. Por exemplo, em vez de se dizer mentiroso, fala-se “filho da mentira”, em vez de irado, “filho da ira”, em vez de rico, “filho da riqueza”. O mesmo ocorre frequentemente no hebraico do Antigo Testamento. Sendo assim, ao se designar Jesus o Filho de Deus, se quer dizer que Ele é divino. Isso fica muito claro na reação dos fariseus em João 5:18, “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-Lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus”.
O título “Filho do Homem” é praticamente exclusivo dos evangelhos. Aparece apenas 4 vezes fora deles (At 7:56; Hb 2:6; Ap 1:13; 14:14). Levando em consideração a informação do parágrafo acima, o título pode ser entendido apenas como “o homem”. Por mais vago que o título possa parecer, ele tinha adquirido já nos tempos de Cristo um tom fortemente messiânico. Era usado pelo judeus “para designar um Salvador escatológico [...] um mediador especial a aparecer no fim dos tempos”.5
Contudo, por meio de seu uso nos evangelhos, “a noção de Filho do Homem é mais ampla, e mais do que qualquer outra, é suscetível a descrever a obra total de Cristo”.6 Por exemplo, Jesus usou esse título em relação a Si mesmo ao descrever Sua atividade e o exercício de Sua autoridade sobre a Terra (Mt 13:37; Mc 2:10, 28; 10:45; Lc 7:34; 9:58; 12:10; 19:10), ao predizer Seu sofrimento e morte (Mc 8:31; 9:31; 10:33), e ao falar de Seu retorno e governo escatológico (Mt 10:23; 19:28; 25:31; Mc 8:38; 14:62; Lc 17:22-30; 21:36).7
Por sua vez, o título “Cristo” acabou se tornando parte do Seu próprio nome, tanto que muitos nem mesmo se dão conta disso. Cristo (do verbo grego chrio-ungir) é a tradução da palavra hebraica “ungido” (mashiach) ou “messias”. Ela designava o Salvador prometido para o qual as profecias do Antigo Testamento apontavam. É possível observar que Jesus sempre observou a mais extrema reticência no tocante ao título de Messias. Embora não tenha recusado verdadeiramente o título, manifestou grande reserva para com ele.8
Não é difícil saber o porquê. Em Sua época, os judeus haviam criado expectativas equivocadas quanto à obra do Messias. Esperavam um libertador meramente político. Assim, “Jesus via por trás da concepção messiânica do judaísmo de então, a obra de Satanás”.9 Não obstante, o título messiânico é usado nos evangelhos em sua perspectiva correta para expressar “Sua origem celestial, Sua missão terrestre e Sua futura vinda gloriosa”.10
Mas o Céu, quem diz que Eu sou? A transfiguração
Os evangelhos são unânimes em situar a transfiguração seis dias depois do diálogo entre Cristo e Seus discípulos sobre quem a multidão e eles mesmos consideravam ser Ele (Lc 9:18-22; cf. com Mt 16:13-23; Mc 8:27-33). Lucas menciona oito dias. Tal diferença pode estar relacionada à forma de contagem, inclusiva ou não, dos dois dias que a experiência no monte durou (Lc 9:37). Seja como for, esse detalhe não afeta o ponto principal que os evangelistas querem deixar claro ao organizarem o material narrativo dessa forma: a transfiguração era uma confirmação das verdades declaradas naquela ocasião. De acordo com Mateus e Marcos, seguindo a confissão de Pedro sobre o messiado de Cristo, Jesus falou que era necessário que o Filho do homem morresse e ressuscitasse ao terceiro dia. Em outras palavras, a obra do Messias envolvia glória e cruz. No monte foram confirmados “os dois fatos do messiado e a capacidade salvadora de Cristo”.11 Desse modo, “o monte endossou a confissão de Pedro e o ensino de Cristo”12 sobre Sua morte de cruz. Era necessário que Cristo subisse os dois montes: o monte da transfiguração e o monte do Calvário.
Os discípulos eram relutantes em entender a segunda parte. E até o fim fixaram-se na glória, brigando pelos primeiros assentos no reino, mesmo momentos antes da paixão de Cristo. Sua fuga em massa e mesmo a traição de Judas não apenas se deu por medo no primeiro caso ou cobiça no segundo. Era em grande medida desilusão. Eles não esperavam um Messias crucificado, mesmo depois de muitos avisos de Cristo. O mesmo sentimento de desilusão não poupou nem mesmo a mente do grande precursor do Messias, João Batista (Lc 7:20). A atitude de Pedro na ocasião é emblemática. Seis dias antes ele havia dito: “tem compaixão de Ti, Senhor”(Mt 16:22), em vista da cruz. Agora, na transfiguração, ele afirmou: “É bom estar aqui” (Lc 9:33), diante da luz da glória. Em outras palavras, “A cruz? Não! A glória, sim”.13
Desse modo, a transfiguração visava fortalecer a fé dos apóstolos. Ellen White afirmou: “O Salvador havia notado a tristeza dos discípulos, e desejou amenizar-lhes a mágoa, com a certeza de que sua fé não havia sido em vão”. Em oração “rogou que testemunhassem uma manifestação de Sua divindade que, na hora de Sua suprema agonia, os confortasse com o conhecimento de que Ele é o Filho de Deus e que Sua ignominiosa morte era parte do plano da redenção”.14 As três testemunhas (Pedro, Tiago e João) escolhidas eram deveras influentes entre os discípulos. Logo após a ascensão, eles assumiram importante papel de liderança na igreja primitiva. Esses mesmos personagens acompanhariam algum tempo depois a angústia de Cristo no Getsêmani, onde diferentemente desse caso, Sua oração não seria respondida de modo positivo. Louvado seja Deus, pois reconhece nossas debilidades e nos ajuda em nossas fraquezas!
Seis dias antes, Jesus havia indagado sobre quem os homens diziam que Ele era. No monte foi a opinião de Deus que se fez ouvir: “Este é o Meu Filho, o Meu eleito, a Ele ouvi” (Lc 9:35). Não importava o que os homens diziam. Como Pedro no monte da transfiguração, muitos falam sem saber o que estão dizendo (Lc 9:33). Mas nas Escrituras Deus abriu as cortinas invisíveis dos Céus, revelando à humanidade quem Ele é o que está disposto a fazer por amor.
Conclusão
Quem é Jesus? É o Deus encarnado, é o amor encarnado. É tudo o que o Céu tinha a oferecer. É o infinito dentro do finito. É eternidade dentro do tempo. É a única esperança que a humanidade tem para ter esperança. É aquele cujas definições nunca serão suficientes.
A pergunta direta de Cristo aos discípulos em Lucas 9:20: “Mas vós quem dizeis que Eu sou?”, traz a questão para o âmbito pessoal. A resposta não será achada em livros, em debates, na opinião alheia, nos documentários ou comentários. A resposta sempre estará em nosso coração. E sempre será decisiva. As implicações de nossa resposta só poderão ser medidas apropriadamente pela eternidade.
Referências:
1. SPROUL, R. C. Who Is Jesus?. v.1 Lake Mary, FL: Reformation Trust Publishing, 2009, p. 2.
2. Ibid, p. 3.
3. Easton, M. G. In Easton’s Bible dictionary. New York: Harper & Brothers, 1893.
4. Idem.
5. CULLMANN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento. Tradução de Daniel Costa, Daniel de Oliveira. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 184.
6. CULLMAN, 2008, p. 184.
7. MYERS, A. C. In The Eerdmans Bible Dictionary. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1987, p. 962.
8. CULLMAN, 2008, p. 166, 167.
9. Idem, p. 165.
10. ELWELL, W. A., & BEITZEL, B. J. In Baker Encyclopedia of the Bible. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1988, p.1983.
12. MORGAN, G. C. The Crises of the Christ (p. 215). New York; London: Fleming H. Revell Company, 1936, p. 215.
13. MORGAN, 1936, p. 216.
14. Idem, 1936, p. 217.
15. WHITE, Ellen Gould. O Desejado de Todas as Nações. Tradução de Isolina A. Waldvogel. 22ª ed., Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004, p. 297.