Autor: Pr. Jônatas Leal
Revisão: Josiéli Nóbrega
Ampliação
O início do ministério público de Jesus foi marcado por dois importantes eventos. Seu batismo no rio Jordão e Sua tentação no deserto por quarenta dias. Ambos os eventos foram antecedidos por um grande reavivamento e reforma realizados pela obra de João Batista. Tão impactante foi seu ministério que muitos pensavam ser ele o Cristo, o Messias prometido (Lc 3:15).
Nesta semana tivemos a oportunidade de reexaminar essas três importantes etapas do plano da salvação: o ministério de João, o batismo de Jesus e Sua tentação no deserto. Ali Cristo começou a trilhar o caminho que João havia de antemão preparado. Desde o início ficaria claro que, embora o fim do caminho fosse glorioso, como a voz do Céu no batismo o atestou, Jesus não chegaria nele sem passar pelo deserto da tentação. Por isso, vamos acompanhar Cristo nesse movimento do Jordão para o deserto, das águas para a sequidão. Mas acima de tudo, da tentação para a vitória.
O ministério de João
Uma das marcas distintivas do ministério de João era sua prática de batizar. Isso acabou conferindo-lhe o título de “o Batista”. O batismo por imersão no judaísmo não era novidade. Alguns rabis chegaram a afirmar que o rito foi inaugurado antes da entrega da lei no Sinai1. Durante a existência do templo, o batismo por imersão, juntamente com a circuncisão e o devido sacrifício, eram exigidos dos novos prosélitos. Para esses, o rito visava limpar a impureza da idolatria e restaurar o homem à pureza de um recém-nascido. Além disso, também era praticado como forma de penitência pelo antigo judaísmo essênio e hassídico.
Contudo, o batismo de João ia além. Era um chamado ao arrependimento à luz da chegada da era messiânica. Sua pregação era contundente (Lc 3:7) e urgente (Lc 3:9). Seu chamado ao arrependimento envolvia reforma de vida pelo abandono dos pecados conhecidos (Lc 3:10-14). Com coragem profética, ele denunciou os pecados de líderes civis como Herodes e religiosos como os fariseus (Mt 3:7; Lc 3:19). Sua influência se tornou tão abrangente que ambos os grupos temiam fazer-lhe mal. A Bíblia fala de multidões que iam ouvir João e ser por ele batizadas (Lc 3:7).
Conforme o relato de Lucas “quando todo o povo estava sendo batizado, também Jesus o foi” (Lc 3:21, NVI). Mesmo um leitor superficial do evangelho é levado a indagar a razão do batismo de Jesus. Se o batismo de João era um chamado ao arrependimento e um sinal público de renúncia da vida de pecado em preparação para a vinda do Messias, então como entender o fato de o próprio Messias ter sido batizado por ele? Ademais, a própria Bíblia é inequívoca ao afirmar a impecabilidade de Jesus (Hb 4:15). Isso nos leva a refletir sobre o verdadeiro significado do batismo de Cristo.
O batismo de Jesus
Depois de trinta anos de anonimato na Galileia (pelo menos naquilo que os evangelhos narram), Jesus apareceu para Seu primeiro ato público. Embora fosse época das grandes festas religiosas do outono (Trombetas, Expiação e Tabernáculos), em que grandes peregrinações ocorriam em Jerusalém, Jesus foi à Judeia especificamente “para ser batizado por João” (Mt 3:13). Tais festas sequer são mencionadas. O motivo da viagem de 100 km era claro. A princípio nem o próprio João compreendeu (Mt 3:14), chegando até mesmo a resistir. Se muitos dos fariseus não eram adequados para receber o batismo, no caso de Jesus era o batismo que não lhe era adequado.
Mas Jesus foi incisivo com João ao afirmar que naquele momento isso era necessário “a fim de cumprir toda a justiça” (Mt 3:15). Nesse contexto, “‘cumprir toda a justiça’ significava completar tudo que faz parte de um relacionamento de obediência a Deus. Assim, Jesus Se identificou e ao mesmo tempo endossou o ministério de João como divinamente ordenado e sua mensagem como algo que deve ser ouvido”.2
Algumas observações devem ser feitas sobre o batismo de Cristo. Em primeiro lugar, não foi um batismo de arrependimento. Então, não nos batizamos com o mesmo propósito de Cristo. Em segundo lugar, Seu batismo não foi uma simples formalidade. Cristo mesmo Se opôs tenazmente à religião formalista de Sua época. De fato, havia uma profecia que apontava para o início de Seu ministério como “ungido”, o Messias prometido. No batismo, Ele foi ungido pelo Espírito Santo e começou a última semana de Daniel 9:24-27. Por fim, da mesma forma, Seu batismo não pretendia ser apenas um exemplo a outros. Pois nele, Jesus verdadeiramente recebeu de modo especial o poder do Espírito Santo para cumprir Sua missão.
Como resultado de Seu batismo, houve uma visão e uma audição. O céu se abriu e o Espírito desceu em forma de pomba (Lc 3:21, 22). O paraíso foi fechado por Adão, mas o céu se abriu para Cristo. O batismo marcou o caminho de volta para casa (Mc 16:16). O batismo não deve ser visto como o fim, mas o início da jornada rumo à santificação. A voz do Céu (Lc 3:22b) citou porções de Salmo 2:7 (“Tu é o Meu Filho”) e Isaías 42:1 (“em quem a Minha alma se compraz”). Respectivamente, ambas as profecias tratam da entronização do Filho divino como rei e da comissão do servo sofredor que, com Seu próprio sangue, tornou-se Mediador da nova aliança. Assim, em Seu batismo, Cristo foi empossado e comissionado. É somente à luz desse contexto que o significado de Seu batismo pode ser entendido.
As tentações de Jesus
Os evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc) são unânimes em afirmar que o evento subsequente ao batismo de Cristo foi Sua tentação no deserto. Imediatamente (Mc 1:12) após o Jordão, Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito para ser tentado. (Lc 4:1, 2). De acordo com Hebreus 2:17,18, “Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, Se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que Ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.”
Curiosamente, Lucas é o único evangelista que insere uma genealogia de Jesus entre esses eventos (Lc 3:23-38). Do ponto de vista literário e teológico, duas razões podem ser apontadas aqui. Em primeiro lugar, a genealogia vem entre dois eventos em que a filiação de Jesus estava em questão3. No primeiro, ela é afirmada (Lc 3:22), no segundo ela é questionada (Lc 4:3). Em segundo lugar, a genealogia de Lucas termina em Adão, filho de Deus (Lc 3:38). Essa não é uma ordem comum para as genealogias na Bíblia, que geralmente começam nos ancestrais mais antigos até chegar aos mais contemporâneos. A de Lucas parte do presente em direção ao passado. Por meio disso, Lucas enfatizou o caráter universal da obra messiânica. Porém, mais do que isso, ele preparou o cenário para a cena seguinte, em que Cristo, o segundo Adão, foi tentado no deserto. Exatamente na primeira tentação Jesus foi questionado sobre Sua posição como Filho de Deus.
Na teologia paulina, cuja influência sobre Lucas deve ter sido grande, fica claro o paralelo entre Adão e Cristo. Adão “prefigurava Aquele que havia de vir” (Rm 5:14). Assim como por meio da derrota de Adão todos compartilham da morte, por meio da vitória de Cristo todos obtêm vida livremente (1Co 15:22). Por Sua vida vitoriosa “o último Adão é espírito vivificante” (1Co 15:45). Da mesma forma, Ellen White destacou esse relacionamento. Ela afirmou: “Cristo, no deserto da tentação, ficou no lugar de Adão para suportar a prova que ele deixou de resistir”.4 Contudo, “Ele não estava em posição favorável para suportar as tentações de Satanás, como estava Adão quando foi tentado no Éden”5. De fato, Adão foi derrotado no paraíso, enquanto Cristo foi vitorioso no deserto.
As tentações demonstram que as táticas do inimigo das almas não tinham, em essência, mudado desde o Éden. Na primeira tentação, ao questionar a filiação de Cristo, Satanás estava pondo em dúvida a própria palavra de Deus que, dias antes, havia declarado no batismo de Jesus: “Tu és o Meu Filho”. Essa não seria a última vez que Satanás pronunciaria essa indagação. Na cruz, mais uma vez, por meio de porta vozes humanos, ele exclamaria: “Se és o Filho de Deus, salva a Ti mesmo e desce da cruz” (Mt 27:40). As palavras de Satanás ecoam aquelas ditas no Éden: “É assim que Deus disse [...]?” (Gn 3:1). Diferente de Adão e Eva, Jesus optou por viver da palavra que sai da boca de Deus (Lc 4:4).
Na segunda tentação, Satanás buscou desviar Cristo de Sua missão como servo sofredor Lhe oferecendo “os reinos do mundo” (Lc 4:5). Na verdade, essa era a expectativa tanto do povo como dos líderes judaicos; um messias conquistador, cujo cetro não só livraria Judá da dominação romana, mas os levaria a conquistar os reinos deste mundo. Essa foi uma tentação constante em Seu ministério. Até mesmo Pedro, levado pelos pensamentos humanos de um messias político, usou um refrão parecido, buscando dissuadir Cristo de Sua missão na cruz. O mesmo recebeu uma das mais duras repreensões registradas no Novo Testamento: “Arreda-te de mim Satanás” (Mt 16:22, 23).
Ao que parece, nem mesmo Satanás percebeu o tamanho de sua presunção, pois oferecia a Cristo o que já era dEle. A lógica dessa tentação também evoca a estratégia usada no Éden. A serpente ofereceu para Eva mais do que ela já tinha. Como se Deus a tivesse privado de algum bem. Ambos poderiam ter mais: Naquele caso, ser “como Deus” (Gn 3:5). Contudo, Eva se esqueceu que já possuía a semelhança e imagem de Deus. O diabo buscava criar a necessidade de algo que ambos aparentemente não possuíam. Por vezes, ainda é assim. A tentação funciona como uma oferta de algo que Deus Se esqueceu de nos dar e que, sem isso, não poderíamos ser felizes. Eis o grande engano por trás das tentações!
Por fim, na última tentação, Satanás apelou para a única autoridade que Cristo havia reconhecido até ali, a Palavra de Deus. No entanto, a distorceu a seu bel prazer, fazendo-a dizer aquilo que nunca tinha pretendido expressar. O diabo citou o Salmo 91:10, 11. Trata-se de uma afirmação do cuidado de Deus para com o salmista. Assim, “a tentação é um teste do cuidado de Deus e da confiança de Cristo em Deus”6. De fato, o homem piedoso não precisa fazer esse teste porque ele tem fé em Deus, e por isso, o ato de atirar-se representa exatamente o oposto: é um sinal de falta de fé.7 Ao longo de Seu ministério, Jesus lutaria para colocar a palavra de Deus na sua devida perspectiva. A vontade de Deus havia sido tão distorcida pelos intérpretes de Seu tempo que havia se tornado um fardo difícil de carregar.
Assim foi no Éden também; ali a serpente distorceu o que Deus havia dito. Ela deu novo significado para o “conhecimento do bem e do mal”, fazendo com que parecesse algo bom que Deus lhes havia privado (Gn 3:5).
Como podemos ver, os mesmos elementos presentes na queda do homem estão presentes na tentação de Cristo no deserto. Na primeira, Ele foi tentado a não crer na palavra de Deus. Na segunda, foi tentado a rejeitar Sua autoridade. Enfim, na terceira, Ele foi tentado a desconfiar da bondade de Deus. Todos esses elementos estavam presentes na estratégia da serpente com Adão e Eva. A diferença é que Cristo venceu todas elas. A lógica da tentação continua a mesma. Apenas a palavra de Deus objetivamente revelada nas Escrituras deve ser nossa salvaguarda. Em Cristo podemos ser vitoriosos. Ele nos deixou o exemplo de como enfrentar a tentação e nos concede o poder, por meio do Espírito, para obter a vitória.
Conclusão
No início de Seu ministério, Cristo começou a trilhar o caminho que Israel havia trilhado muitos séculos antes. Além de ser o segundo Adão, Cristo é o novo Israel. Como Cristo, Israel foi batizado tanto na nuvem como no mar (1Co 10:2) antes de enfrentar o deserto. Para cada ano de Israel no deserto, Cristo passou um dia. Não foi por acaso que todos os textos mencionados por Cristo durante a tentação são extraídos de algum momento da experiência de Israel (Dt 8:3; Êx 20:3-6; Dt 6:14). Cristo não representa apenas Israel, mas a humanidade inteira. Ele carrega em Seus ombros nossas fragilidades, derrotas, e incapacidades. Em troca, coloca sobre nós Sua força, Sua vitória e Seu poder. A vitória de Cristo no deserto é a nossa vitória. Por isso, não hesitemos em dizer que nEle “somos mais que vencedores” (Rm 8:37).
Referências:
1. BAPTISM. Jewish Encyclopedia. Disponível em: http://www.jewishencyclopedia.com
/articles/2456-baptism.
2. BLOMBERG, C. The New American Commentary: Matthew. v. 22. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1992. p.81
3. BOCK, D. L. Luke: 1:1-9:50. v. 1. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 1994. p. 349.
4. WHITE, Ellen Gould; SILVA, Horne P. No deserto da tentação: os primeiros e decisivos lances da vitória sobre o pecado. 6ª ed. , 2. reimp. São Paulo - SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012. P.38.
5. Idem, p. 38
6. BOCK, 1994, p. 380.
7. Marshall, I. H. The Gospel of Luke: a commentary on the Greek text. Exeter: Paternoster Press, 1978. p. 173.