Mostrando postagens com marcador Comentário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Comentário. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de abril de 2015

Comentários LES - Quem é Jesus Cristo?

Autor: Pr. Jônatas Leal
Revisão: Josiéli Nóbrega 

Introdução

Há uma longa história de debate sobre quem foi Jesus. Na verdade esse mesmo debate foi igualmente desenvolvido dentro do judaísmo que antecedeu o primeiro século. Apenas a perspectiva era diferente: quem seria o Messias? Como Ele viria? E foram exatamente as expectativas equivocadas que levaram em grande medida muitos a rejeitar Jesus como o Messias. Por isso, a questão não é periférica. Deve-se reconhecer que, atualmente, não há menos ideias equivocadas sobre Cristo do que havia no tempo de sua primeira vinda. Pelo contrário, o tempo serviu de incubadora para tais ideias.

De fato, Jesus dividiu a História. Mas não apenas isso, dividiu as pessoas em dois grupos. Hoje não é diferente. Diante de Jesus não é possível a neutralidade. Nesta semana, temos a oportunidade de refletir sobre a importante questão de quem foi Jesus através do evangelho de Lucas. Contudo, mais do que conhecer a verdade sobre esse personagem que mudou a História, sempre será indispensável ponderar sobre o que isso significa para nós.


“Mas vós, quem dizeis que Eu sou?”

De fato, “a influência titânica desse Homem fez dEle um grande alvo das flechas do criticismo e o objeto supremo de revisão de acordo com os preconceitos do intérprete.1 Curiosamente, depois de tantos anos, “o que os eruditos descobriram por trás do véu foi um Jesus criado às suas próprias imagens, segundo seus próprios preconceitos. Os liberais do século 19 descobriram um Jesus ‘liberal’; os existencialistas descobriram um herói existencialista, e os marxistas descobriram um revolucionário político. Idealistas descobriram um idealista e os pragmáticos descobriram um Cristo pragmático”.2

Assim, a resposta à pergunta “mas vós quem dizeis que Eu sou?” tem um lado objetivo e outro subjetivo. Do ponto de vista objetivo, é importante levar em consideração aquilo que a revelação divina, por meio das Escrituras, revela acerca de Cristo. Muitos estão sinceramente enganados sobre quem foi Cristo porque levam em conta apenas suas próprias ideias preconcebidas, sem parar para ouvir o que a palavra de Deus revela sobre Sua identidade. Desse modo, criam seus próprios “messias” exatamente como fizeram muitos dos contemporâneos de Cristo.

Do ponto de vista subjetivo, devemos sempre refletir sobre o que Jesus significa para nós, individualmente, qual é o impacto disso em nossa vida. O conhecimento objetivo de Cristo por si não pode causar transformação. O termo “conhecer” nos evangelhos, principalmente em João, está intimamente ligado ao relacionamento entre o discípulo e o mestre. Contudo, se apenas a experiência e o relacionamento forem levados em conta, podemos ter uma ideia distorcida e equivocada sobre Jesus. Para isso, precisamos da revelação divina objetiva em Sua Palavra. Tudo que sabemos sobre Deus e a salvação depende do que Ele mesmo revela sobre Si. Uma das formas mais eficazes de aprender sobre a pessoa de Cristo é prestar atenção aos títulos que os evangelhos Lhe conferem e como Ele Se relacionou com os mesmos.


Os títulos de Jesus nos evangelhos

A resposta dos discípulos em Lucas 9:18 revela as diferentes concepções sobre Cristo em Sua época: um antigo profeta, Elias e mesmo João Batista ressurreto. Poderíamos passar anos estudando os muitos títulos atribuídos a Jesus nas Escrituras: Profeta, Servo Sofredor, Sumo Sacerdote, Verbo, Senhor, Mestre, Filho de Davi, Cordeiro de Deus, Salvador, Lírio dos Vales, Leão da Tribo de Judá, etc. A lista ainda se estenderia muito. Contudo, não há espaço aqui para isso. Então, nos deteremos apenas naqueles que estamos estudando nesta semana: Filho de Deus, Filho do homem e Cristo (Messias).

O título “Filho de Deus” ocorre trinta e sete vezes no Novo Testamento para designar a pessoa de Jesus3, e aponta dois aspectos: Sua submissão ao Pai ao cumprir Sua missão de salvar o mundo e Seu relacionamento único com Ele. O título deve ser entendido à luz do seu contexto. No início do século 4 d.C. alguns, liderados por Ário, interpretaram o título como uma evidência de que Cristo possuía uma pré-existência limitada e que em algum momento da eternidade Ele teria sido gerado pelo Pai.

Contudo, o título quer dizer exatamente o contrário. De fato, “este é um título de natureza e não de ofício. A filiação de Deus denota Sua igualdade com o Pai. Chamar Cristo ‘o Filho de Deus é afirmar Sua verdadeira divindade”.4 O termo aramaico bar (filho) é muitas vezes usado em sentido figurado. Por exemplo, em vez de se dizer mentiroso, fala-se “filho da mentira”, em vez de irado, “filho da ira”, em vez de rico, “filho da riqueza”. O mesmo ocorre frequentemente no hebraico do Antigo Testamento. Sendo assim, ao se designar Jesus o Filho de Deus, se quer dizer que Ele é divino. Isso fica muito claro na reação dos fariseus em João 5:18, “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-Lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus”.

O título “Filho do Homem” é praticamente exclusivo dos evangelhos. Aparece apenas 4 vezes fora deles (At 7:56; Hb 2:6; Ap 1:13; 14:14). Levando em consideração a informação do parágrafo acima, o título pode ser entendido apenas como “o homem”. Por mais vago que o título possa parecer, ele tinha adquirido já nos tempos de Cristo um tom fortemente messiânico. Era usado pelo judeus “para designar um Salvador escatológico [...] um mediador especial a aparecer no fim dos tempos”.5

Contudo, por meio de seu uso nos evangelhos, “a noção de Filho do Homem é mais ampla, e mais do que qualquer outra, é suscetível a descrever a obra total de Cristo”.6 Por exemplo, Jesus usou esse título em relação a Si mesmo ao descrever Sua atividade e o exercício de Sua autoridade sobre a Terra (Mt 13:37; Mc 2:10, 28; 10:45; Lc 7:34; 9:58; 12:10; 19:10), ao predizer Seu sofrimento e morte (Mc 8:31; 9:31; 10:33), e ao falar de Seu retorno e governo escatológico (Mt 10:23; 19:28; 25:31; Mc 8:38; 14:62; Lc 17:22-30; 21:36).7

Por sua vez, o título “Cristo” acabou se tornando parte do Seu próprio nome, tanto que muitos nem mesmo se dão conta disso. Cristo (do verbo grego chrio-ungir) é a tradução da palavra hebraica “ungido” (mashiach) ou “messias”. Ela designava o Salvador prometido para o qual as profecias do Antigo Testamento apontavam. É possível observar que Jesus sempre observou a mais extrema reticência no tocante ao título de Messias. Embora não tenha recusado verdadeiramente o título, manifestou grande reserva para com ele.8

Não é difícil saber o porquê. Em Sua época, os judeus haviam criado expectativas equivocadas quanto à obra do Messias. Esperavam um libertador meramente político. Assim, “Jesus via por trás da concepção messiânica do judaísmo de então, a obra de Satanás”.9 Não obstante, o título messiânico é usado nos evangelhos em sua perspectiva correta para expressar “Sua origem celestial, Sua missão terrestre e Sua futura vinda gloriosa”.10


Mas o Céu, quem diz que Eu sou? A transfiguração

Os evangelhos são unânimes em situar a transfiguração seis dias depois do diálogo entre Cristo e Seus discípulos sobre quem a multidão e eles mesmos consideravam ser Ele (Lc 9:18-22; cf. com Mt 16:13-23; Mc 8:27-33). Lucas menciona oito dias. Tal diferença pode estar relacionada à forma de contagem, inclusiva ou não, dos dois dias que a experiência no monte durou (Lc 9:37). Seja como for, esse detalhe não afeta o ponto principal que os evangelistas querem deixar claro ao organizarem o material narrativo dessa forma: a transfiguração era uma confirmação das verdades declaradas naquela ocasião. De acordo com Mateus e Marcos, seguindo a confissão de Pedro sobre o messiado de Cristo, Jesus falou que era necessário que o Filho do homem morresse e ressuscitasse ao terceiro dia. Em outras palavras, a obra do Messias envolvia glória e cruz. No monte foram confirmados “os dois fatos do messiado e a capacidade salvadora de Cristo”.11 Desse modo, “o monte endossou a confissão de Pedro e o ensino de Cristo”12 sobre Sua morte de cruz. Era necessário que Cristo subisse os dois montes: o monte da transfiguração e o monte do Calvário.

Os discípulos eram relutantes em entender a segunda parte. E até o fim fixaram-se na glória, brigando pelos primeiros assentos no reino, mesmo momentos antes da paixão de Cristo. Sua fuga em massa e mesmo a traição de Judas não apenas se deu por medo no primeiro caso ou cobiça no segundo. Era em grande medida desilusão. Eles não esperavam um Messias crucificado, mesmo depois de muitos avisos de Cristo. O mesmo sentimento de desilusão não poupou nem mesmo a mente do grande precursor do Messias, João Batista (Lc 7:20). A atitude de Pedro na ocasião é emblemática. Seis dias antes ele havia dito: “tem compaixão de Ti, Senhor”(Mt 16:22), em vista da cruz. Agora, na transfiguração, ele afirmou: “É bom estar aqui” (Lc 9:33), diante da luz da glória. Em outras palavras, “A cruz? Não! A glória, sim”.13

Desse modo, a transfiguração visava fortalecer a fé dos apóstolos. Ellen White afirmou: “O Salvador havia notado a tristeza dos discípulos, e desejou amenizar-lhes a mágoa, com a certeza de que sua fé não havia sido em vão”. Em oração “rogou que testemunhassem uma manifestação de Sua divindade que, na hora de Sua suprema agonia, os confortasse com o conhecimento de que Ele é o Filho de Deus e que Sua ignominiosa morte era parte do plano da redenção”.14 As três testemunhas (Pedro, Tiago e João) escolhidas eram deveras influentes entre os discípulos. Logo após a ascensão, eles assumiram importante papel de liderança na igreja primitiva. Esses mesmos personagens acompanhariam algum tempo depois a angústia de Cristo no Getsêmani, onde diferentemente desse caso, Sua oração não seria respondida de modo positivo. Louvado seja Deus, pois reconhece nossas debilidades e nos ajuda em nossas fraquezas!

Seis dias antes, Jesus havia indagado sobre quem os homens diziam que Ele era. No monte foi a opinião de Deus que se fez ouvir: “Este é o Meu Filho, o Meu eleito, a Ele ouvi” (Lc 9:35). Não importava o que os homens diziam. Como Pedro no monte da transfiguração, muitos falam sem saber o que estão dizendo (Lc 9:33). Mas nas Escrituras Deus abriu as cortinas invisíveis dos Céus, revelando à humanidade quem Ele é o que está disposto a fazer por amor.


Conclusão

Quem é Jesus? É o Deus encarnado, é o amor encarnado. É tudo o que o Céu tinha a oferecer. É o infinito dentro do finito. É eternidade dentro do tempo. É a única esperança que a humanidade tem para ter esperança. É aquele cujas definições nunca serão suficientes.

A pergunta direta de Cristo aos discípulos em Lucas 9:20: “Mas vós quem dizeis que Eu sou?”, traz a questão para o âmbito pessoal. A resposta não será achada em livros, em debates, na opinião alheia, nos documentários ou comentários. A resposta sempre estará em nosso coração. E sempre será decisiva. As implicações de nossa resposta só poderão ser medidas apropriadamente pela eternidade.


Referências:

1. SPROUL, R. C. Who Is Jesus?. v.1 Lake Mary, FL: Reformation Trust Publishing, 2009, p. 2.
2. Ibid, p. 3.
3. Easton, M. G. In Easton’s Bible dictionary. New York: Harper & Brothers, 1893.
4. Idem.
5. CULLMANN, Oscar. Cristologia do Novo Testamento. Tradução de Daniel Costa, Daniel de Oliveira. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 184.
6. CULLMAN, 2008, p. 184.
7. MYERS, A. C. In The Eerdmans Bible Dictionary. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1987, p. 962.
8. CULLMAN, 2008, p. 166, 167.
9. Idem, p. 165.
10. ELWELL, W. A., & BEITZEL, B. J. In Baker Encyclopedia of the Bible. Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1988, p.1983.
12. MORGAN, G. C. The Crises of the Christ (p. 215). New York; London: Fleming H. Revell Company, 1936, p. 215.
13. MORGAN, 1936, p. 216.
14. Idem, 1936, p. 217.
15. WHITE, Ellen Gould. O Desejado de Todas as Nações. Tradução de Isolina A. Waldvogel. 22ª ed., Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004, p. 297.

sábado, 4 de abril de 2015

Comentários da Lição - O batismo e as tentações

Autor: Pr. Jônatas Leal
Revisão: Josiéli Nóbrega

Ampliação

O início do ministério público de Jesus foi marcado por dois importantes eventos. Seu batismo no rio Jordão e Sua tentação no deserto por quarenta dias. Ambos os eventos foram antecedidos por um grande reavivamento e reforma realizados pela obra de João Batista. Tão impactante foi seu ministério que muitos pensavam ser ele o Cristo, o Messias prometido (Lc 3:15).

Nesta semana tivemos a oportunidade de reexaminar essas três importantes etapas do plano da salvação: o ministério de João, o batismo de Jesus e Sua tentação no deserto. Ali Cristo começou a trilhar o caminho que João havia de antemão preparado. Desde o início ficaria claro que, embora o fim do caminho fosse glorioso, como a voz do Céu no batismo o atestou, Jesus não chegaria nele sem passar pelo deserto da tentação. Por isso, vamos acompanhar Cristo nesse movimento do Jordão para o deserto, das águas para a sequidão. Mas acima de tudo, da tentação para a vitória. 


O ministério de João

Uma das marcas distintivas do ministério de João era sua prática de batizar. Isso acabou conferindo-lhe o título de “o Batista”. O batismo por imersão no judaísmo não era novidade. Alguns rabis chegaram a afirmar que o rito foi inaugurado antes da entrega da lei no Sinai1. Durante a existência do templo, o batismo por imersão, juntamente com a circuncisão e o devido sacrifício, eram exigidos dos novos prosélitos. Para esses, o rito visava limpar a impureza da idolatria e restaurar o homem à pureza de um recém-nascido. Além disso, também era praticado como forma de penitência pelo antigo judaísmo essênio e hassídico.

Contudo, o batismo de João ia além. Era um chamado ao arrependimento à luz da chegada da era messiânica. Sua pregação era contundente (Lc 3:7) e urgente (Lc 3:9). Seu chamado ao arrependimento envolvia reforma de vida pelo abandono dos pecados conhecidos (Lc 3:10-14). Com coragem profética, ele denunciou os pecados de líderes civis como Herodes e religiosos como os fariseus (Mt 3:7; Lc 3:19). Sua influência se tornou tão abrangente que ambos os grupos temiam fazer-lhe mal. A Bíblia fala de multidões que iam ouvir João e ser por ele batizadas (Lc 3:7).

Conforme o relato de Lucas “quando todo o povo estava sendo batizado, também Jesus o foi” (Lc 3:21, NVI). Mesmo um leitor superficial do evangelho é levado a indagar a razão do batismo de Jesus. Se o batismo de João era um chamado ao arrependimento e um sinal público de renúncia da vida de pecado em preparação para a vinda do Messias, então como entender o fato de o próprio Messias ter sido batizado por ele? Ademais, a própria Bíblia é inequívoca ao afirmar a impecabilidade de Jesus (Hb 4:15). Isso nos leva a refletir sobre o verdadeiro significado do batismo de Cristo. 


O batismo de Jesus

Depois de trinta anos de anonimato na Galileia (pelo menos naquilo que os evangelhos narram), Jesus apareceu para Seu primeiro ato público. Embora fosse época das grandes festas religiosas do outono (Trombetas, Expiação e Tabernáculos), em que grandes peregrinações ocorriam em Jerusalém, Jesus foi à Judeia especificamente “para ser batizado por João” (Mt 3:13). Tais festas sequer são mencionadas. O motivo da viagem de 100 km era claro. A princípio nem o próprio João compreendeu (Mt 3:14), chegando até mesmo a resistir. Se muitos dos fariseus não eram adequados para receber o batismo, no caso de Jesus era o batismo que não lhe era adequado. 
Mas Jesus foi incisivo com João ao afirmar que naquele momento isso era necessário “a fim de cumprir toda a justiça” (Mt 3:15). Nesse contexto, “‘cumprir toda a justiça’ significava completar tudo que faz parte de um relacionamento de obediência a Deus. Assim, Jesus Se identificou e ao mesmo tempo endossou o ministério de João como divinamente ordenado e sua mensagem como algo que deve ser ouvido”.2

Algumas observações devem ser feitas sobre o batismo de Cristo. Em primeiro lugar, não foi um batismo de arrependimento. Então, não nos batizamos com o mesmo propósito de Cristo. Em segundo lugar, Seu batismo não foi uma simples formalidade. Cristo mesmo Se opôs tenazmente à religião formalista de Sua época. De fato, havia uma profecia que apontava para o início de Seu ministério como “ungido”, o Messias prometido. No batismo, Ele foi ungido pelo Espírito Santo e começou a última semana de Daniel 9:24-27. Por fim, da mesma forma, Seu batismo não pretendia ser apenas um exemplo a outros. Pois nele, Jesus verdadeiramente recebeu de modo especial o poder do Espírito Santo para cumprir Sua missão.  

Como resultado de Seu batismo, houve uma visão e uma audição. O céu se abriu e o Espírito desceu em forma de pomba (Lc 3:21, 22). O paraíso foi fechado por Adão, mas o céu se abriu para Cristo. O batismo marcou o caminho de volta para casa (Mc 16:16). O batismo não deve ser visto como o fim, mas o início da jornada rumo à santificação. A voz do Céu (Lc 3:22b) citou porções de Salmo 2:7 (“Tu é o Meu Filho”) e Isaías 42:1 (“em quem a Minha alma se compraz”). Respectivamente, ambas as profecias tratam da entronização do Filho divino como rei e da comissão do servo sofredor que, com Seu próprio sangue, tornou-se Mediador da nova aliança. Assim, em Seu batismo, Cristo foi empossado e comissionado. É somente à luz desse contexto que o significado de Seu batismo pode ser entendido.                           


As tentações de Jesus

Os evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc) são unânimes em afirmar que o evento subsequente ao batismo de Cristo foi Sua tentação no deserto. Imediatamente (Mc 1:12) após o Jordão, Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito para ser tentado. (Lc 4:1, 2). De acordo com Hebreus 2:17,18, “Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, Se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que Ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.”

Curiosamente, Lucas é o único evangelista que insere uma genealogia de Jesus entre esses eventos (Lc 3:23-38). Do ponto de vista literário e teológico, duas razões podem ser apontadas aqui. Em primeiro lugar, a genealogia vem entre dois eventos em que a filiação de Jesus estava em questão3. No primeiro, ela é afirmada (Lc 3:22), no segundo ela é questionada (Lc 4:3). Em segundo lugar, a genealogia de Lucas termina em Adão, filho de Deus (Lc 3:38). Essa não é uma ordem comum para as genealogias na Bíblia, que geralmente começam nos ancestrais mais antigos até chegar aos mais contemporâneos. A de Lucas parte do presente em direção ao passado. Por meio disso, Lucas enfatizou o caráter universal da obra messiânica. Porém, mais do que isso, ele preparou o cenário para a cena seguinte, em que Cristo, o segundo Adão, foi tentado no deserto. Exatamente na primeira tentação Jesus foi questionado sobre Sua posição como Filho de Deus.

Na teologia paulina, cuja influência sobre Lucas deve ter sido grande, fica claro o paralelo entre Adão e Cristo. Adão “prefigurava Aquele que havia de vir” (Rm 5:14). Assim como por meio da derrota de Adão todos compartilham da morte, por meio da vitória de Cristo todos obtêm vida livremente (1Co 15:22). Por Sua vida vitoriosa “o último Adão é espírito vivificante” (1Co 15:45). Da mesma forma, Ellen White destacou esse relacionamento. Ela afirmou: “Cristo, no deserto da tentação, ficou no lugar de Adão para suportar a prova que ele deixou de resistir”.4 Contudo, “Ele não estava em posição favorável para suportar as tentações de Satanás, como estava Adão quando foi tentado no Éden”5. De fato, Adão foi derrotado no paraíso, enquanto Cristo foi vitorioso no deserto.

As tentações demonstram que as táticas do inimigo das almas não tinham, em essência, mudado desde o Éden. Na primeira tentação, ao questionar a filiação de Cristo, Satanás estava pondo em dúvida a própria palavra de Deus que, dias antes, havia declarado no batismo de Jesus: “Tu és o Meu Filho”. Essa não seria a última vez que Satanás pronunciaria essa indagação. Na cruz, mais uma vez, por meio de porta vozes humanos, ele exclamaria: “Se és o Filho de Deus, salva a Ti mesmo e desce da cruz” (Mt 27:40). As palavras de Satanás ecoam aquelas ditas no Éden: “É assim que Deus disse [...]?” (Gn 3:1). Diferente de Adão e Eva, Jesus optou por viver da palavra que sai da boca de Deus (Lc 4:4).

Na segunda tentação, Satanás buscou desviar Cristo de Sua missão como servo sofredor Lhe oferecendo “os reinos do mundo” (Lc 4:5). Na verdade, essa era a expectativa tanto do povo como dos líderes judaicos; um messias conquistador, cujo cetro não só livraria Judá da dominação romana, mas os levaria a conquistar os reinos deste mundo. Essa foi uma tentação constante em Seu ministério. Até mesmo Pedro, levado pelos pensamentos humanos de um messias político, usou um refrão parecido, buscando dissuadir Cristo de Sua missão na cruz. O mesmo recebeu uma das mais duras repreensões registradas no Novo Testamento: “Arreda-te de mim Satanás” (Mt 16:22, 23). 
Ao que parece, nem mesmo Satanás percebeu o tamanho de sua presunção, pois oferecia a Cristo o que já era dEle. A lógica dessa tentação também evoca a estratégia usada no Éden. A serpente ofereceu para Eva mais do que ela já tinha. Como se Deus a tivesse privado de algum bem. Ambos poderiam ter mais: Naquele caso, ser “como Deus” (Gn 3:5). Contudo, Eva se esqueceu que já possuía a semelhança e imagem de Deus. O diabo buscava criar a necessidade de algo que ambos aparentemente não possuíam. Por vezes, ainda é assim. A tentação funciona como uma oferta de algo que Deus Se esqueceu de nos dar e que, sem isso, não poderíamos ser felizes. Eis o grande engano por trás das tentações!

Por fim, na última tentação, Satanás apelou para a única autoridade que Cristo havia reconhecido até ali, a Palavra de Deus. No entanto, a distorceu a seu bel prazer, fazendo-a dizer aquilo que nunca tinha pretendido expressar. O diabo citou o Salmo 91:10, 11. Trata-se de uma afirmação do cuidado de Deus para com o salmista. Assim, “a tentação é um teste do cuidado de Deus e da confiança de Cristo em Deus”6. De fato, o homem piedoso não precisa fazer esse teste porque ele tem fé em Deus, e por isso, o ato de atirar-se representa exatamente o oposto: é um sinal de falta de fé.7 Ao longo de Seu ministério, Jesus lutaria para colocar a palavra de Deus na sua devida perspectiva. A vontade de Deus havia sido tão distorcida pelos intérpretes de Seu tempo que havia se tornado um fardo difícil de carregar.

Assim foi no Éden também; ali a serpente distorceu o que Deus havia dito. Ela deu novo significado para o “conhecimento do bem e do mal”, fazendo com que parecesse algo bom que Deus lhes havia privado (Gn 3:5).

Como podemos ver, os mesmos elementos presentes na queda do homem estão presentes na tentação de Cristo no deserto. Na primeira, Ele foi tentado a não crer na palavra de Deus. Na segunda, foi tentado a rejeitar Sua autoridade. Enfim, na terceira, Ele foi tentado a desconfiar da bondade de Deus. Todos esses elementos estavam presentes na estratégia da serpente com Adão e Eva. A diferença é que Cristo venceu todas elas. A lógica da tentação continua a mesma. Apenas a palavra de Deus objetivamente revelada nas Escrituras deve ser nossa salvaguarda. Em Cristo podemos ser vitoriosos. Ele nos deixou o exemplo de como enfrentar a tentação e nos concede o poder, por meio do Espírito, para obter a vitória.


Conclusão

No início de Seu ministério, Cristo começou a trilhar o caminho que Israel havia trilhado muitos séculos antes. Além de ser o segundo Adão, Cristo é o novo Israel. Como Cristo, Israel foi batizado tanto na nuvem como no mar (1Co 10:2) antes de enfrentar o deserto. Para cada ano de Israel no deserto, Cristo passou um dia. Não foi por acaso que todos os textos mencionados por Cristo durante a tentação são extraídos de algum momento da experiência de Israel (Dt 8:3; Êx 20:3-6; Dt 6:14). Cristo não representa apenas Israel, mas a humanidade inteira. Ele carrega em Seus ombros nossas fragilidades, derrotas, e incapacidades. Em troca, coloca sobre nós Sua força, Sua vitória e Seu poder. A vitória de Cristo no deserto é a nossa vitória. Por isso, não hesitemos em dizer que nEle “somos mais que vencedores” (Rm 8:37).


Referências:

1. BAPTISM. Jewish Encyclopedia. Disponível em: http://www.jewishencyclopedia.com
/articles/2456-baptism.    
2. BLOMBERG, C. The New American Commentary: Matthew. v. 22. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1992. p.81
3. BOCK, D. L. Luke: 1:1-9:50. v. 1. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 1994. p. 349.
4. WHITE, Ellen Gould; SILVA, Horne P. No deserto da tentação: os primeiros e decisivos lances da vitória sobre o pecado. 6ª ed. , 2. reimp. São Paulo - SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012. P.38.
5. Idem, p. 38
6. BOCK, 1994, p. 380.
7. Marshall, I. H. The Gospel of Luke: a commentary on the Greek text. Exeter: Paternoster Press, 1978. p. 173.

domingo, 29 de março de 2015

Comentário - O evangelho de Lucas

O elevado estilo linguístico do Evangelho de Lucas revela a capacidade intelectual de seu autor. Provavelmente escrito até 63 d.C., ele tinha como alvo, em especial, leitores gregos. Não é em vão que, em Lucas, Cristo é apresentado como o Amigo da Humanidade, que está “em contato íntimo com as necessidades humanas, enfatizando o lado humano de Sua natureza”.2

O Evangelho de Lucas revela o Salvador compassivo e amoroso que não tolera o preconceito em qualquer de suas formas, seja racial, social ou mesmo religioso. Ele se relaciona em todas as facetas diárias com aqueles que a elite social e religiosa israelita ou romana nem sequer ousava tocar. Por isso, não seria exagero afirmar que em Lucas 19:10 encontramos o resumo mais apropriado da obra do Salvador: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.”

A partir do prefácio de Lucas (1:1-4) também é possível inferir que sua tarefa era oferecer a seus contemporâneos “um relato da história de Jesus capaz de habilitá-los a ver que a história com a qual eles tinham parcialmente se familiarizado era uma base confiável para sua fé”.3 Isso mostra que, em seu lugar adequado, as evidências podem desempenhar um papel muito importante em nosso crescimento espiritual.

Além disso, muitos poderiam questionar como a revelação e inspiração podem se encaixar na “acurada investigação” (1:3) que resultou na obra de Lucas, o que pode parecer um tanto quanto “secular” ou “profano” para alguns. Contudo, Lucas nos ajuda a entender que Deus é capaz de Se comunicar tanto mediante formas significativas criadas por Ele miraculosamente como por aquelas criadas de maneira invisível quando Ele fez uso de objetos, documentos e circunstâncias aparentemente comuns.4

De fato, Deus pode falar muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1:1, 2). Ao longo da Bíblia podemos discernir muitos padrões reveladores. Por exemplo, o padrão teofânico no qual o próprio Deus fala diretamente ao profeta e o padrão profético, no qual Deus usa sonhos e visões para Se comunicar. Como o prefácio revela, Lucas produziu seu evangelho pelo padrão histórico. Qualquer que seja o envolvimento humano na revelação, mesmo aquele mais direto como em Lucas, Deus está em constante controle e supervisão do trabalho editorial ou mesmo da seleção das fontes orais e escritas. Portanto, esse controle divino alcança tanto o pensamento quanto as palavras do profeta. Não obstante, a atuação divina sempre levou em conta a individualidade de cada autor bíblico. É exatamente por isso que a Bíblia pode ser considerada uma obra divino-humana. Ambas as dimensões sempre estão relacionadas inseparável e miraculosamente como acontece na natureza divino-humana de Cristo.5

Vale lembrar que a obra de Lucas é mais do que história sagrada. Do ponto de vista teológico e literário, o livro é um evangelho, ou seja, “uma apresentação do ministério de Jesus a partir de seu significado savífico”.6 De fato, por meio da inspiração Lucas, que era médico de homens (Cl 4:14), passou a ser também médico de almas.

sábado, 28 de março de 2015

Comentários

Você já perguntou por que foram escritos quatro evangelhos? Se eles fossem unidos harmoniosamente sendo retiradas as histórias duplicadas e as pequenas dessemelhanças teríamos uma história mais compreensível da vida de Cristo. Contudo, não foi assim que ocorreu. Mas, à medida que lemos os evangelhos podemos perceber a razão.

Os evangelhos são mais do que meras biografias de Jesus. Por meio deles, o “Espírito Santo tem fotografado o Senhor Jesus de quatro diferentes ângulos”.1 Embora reconheçamos com o apóstolo João em seu evangelho que, se todas as coisas que Cristo fez fossem registradas, nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos (21:25), os quatro evangelhos nos proporcionam um retrato mais completo do Salvador. Neste trimestre teremos a alegria de explorar o encantador retrato de Cristo conforme registrado no evangelho de Lucas.

O evangelho de Lucas

O elevado estilo linguístico do Evangelho de Lucas revela a capacidade intelectual de seu autor. Provavelmente escrito até 63 d.C., ele tinha como alvo, em especial, leitores gregos. Não é em vão que, em Lucas, Cristo é apresentado como o Amigo da Humanidade, que está “em contato íntimo com as necessidades humanas, enfatizando o lado humano de Sua natureza”.2

O Evangelho de Lucas revela o Salvador compassivo e amoroso que não tolera o preconceito em qualquer de suas formas, seja racial, social ou mesmo religioso. Ele se relaciona em todas as facetas diárias com aqueles que a elite social e religiosa israelita ou romana nem sequer ousava tocar. Por isso, não seria exagero afirmar que em Lucas 19:10 encontramos o resumo mais apropriado da obra do Salvador: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.”

A partir do prefácio de Lucas (1:1-4) também é possível inferir que sua tarefa era oferecer a seus contemporâneos “um relato da história de Jesus capaz de habilitá-los a ver que a história com a qual eles tinham parcialmente se familiarizado era uma base confiável para sua fé”.3 Isso mostra que, em seu lugar adequado, as evidências podem desempenhar um papel muito importante em nosso crescimento espiritual.

Além disso, muitos poderiam questionar como a revelação e inspiração podem se encaixar na “acurada investigação” (1:3) que resultou na obra de Lucas, o que pode parecer um tanto quanto “secular” ou “profano” para alguns. Contudo, Lucas nos ajuda a entender que Deus é capaz de Se comunicar tanto mediante formas significativas criadas por Ele miraculosamente como por aquelas criadas de maneira invisível quando Ele fez uso de objetos, documentos e circunstâncias aparentemente comuns.4

De fato, Deus pode falar muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1:1, 2). Ao longo da Bíblia podemos discernir muitos padrões reveladores. Por exemplo, o padrão teofânico no qual o próprio Deus fala diretamente ao profeta e o padrão profético, no qual Deus usa sonhos e visões para Se comunicar. Como o prefácio revela, Lucas produziu seu evangelho pelo padrão histórico. Qualquer que seja o envolvimento humano na revelação, mesmo aquele mais direto como em Lucas, Deus está em constante controle e supervisão do trabalho editorial ou mesmo da seleção das fontes orais e escritas. Portanto, esse controle divino alcança tanto o pensamento quanto as palavras do profeta. Não obstante, a atuação divina sempre levou em conta a individualidade de cada autor bíblico. É exatamente por isso que a Bíblia pode ser considerada uma obra divino-humana. Ambas as dimensões sempre estão relacionadas inseparável e miraculosamente como acontece na natureza divino-humana de Cristo.5

Vale lembrar que a obra de Lucas é mais do que história sagrada. Do ponto de vista teológico e literário, o livro é um evangelho, ou seja, “uma apresentação do ministério de Jesus a partir de seu significado savífico”.6 De fato, por meio da inspiração Lucas, que era médico de homens (Cl 4:14), passou a ser também médico de almas.

O precursor do Messias

Apesar de um período tão grande entre Malaquias e Lucas, o nascimento e obra de João Batista já haviam sido preditos no Antigo Testamento. Nos últimos dois versos do Antigo Testamento Deus deixou a promessa: “Eu vos enviarei o profeta Elias”(Ml 4:5, 6). Claramente, desde o anúncio de seu nascimento (Lc 1:17), até mesmo nas declarações de Cristo (Mt 17:12), João Batista cumpriu essa profecia. A prática do batismo para arrependimento (Mt 3:11) pode ser uma indicação de que ele converteria “o coração dos pais aos filhos, e dos filhos aos pais” (Ml 4:6), conforme Malaquias havia predito.

A relação entre a profecia de Malaquias e João Batista demonstra que a história não terminaria em Malaquias 4:6. A última palavra do Antigo Testamento, registrada nesse verso é “maldição” (herem). Essa não seria a palavra final. A história termina no último verso de Apocalipse com “a graça do nosso Senhor Jesus” (Ap 22:21). A missão de João era anunciar a manifestação dessa graça, a chegada da salvação.

Para isso, Deus enviaria o maior “entre os nascidos de mulher” (Lc 7:28). Com um estilo de vida simples, mas com autoridade de uma vida coerente, João Batista relembrava o ministério de seu antecessor tipológico, o Elias do Antigo Testamento. Como a geração para a qual Elias pregou, os contemporâneos de João não poderiam ficar neutros. Não seria possível “coxear entre dois pensamentos” (1Rs 18:21). Como nas palavras de Simeão, o Cristo seria alvo de contradição, quer para levantamento ou ruína (Lc 2:34).

O Messias que ninguém esperava

Diferente de todos os profetas que o antecederam, João Batista pôde ver o cumprimento final de sua pregação. Jacó profetizou sobre o Rei universal (Gn 49:10), Moisés falou de “um Profeta” a quem todos ouviriam (Dt 18:18), Balaão viu a “estrela que procederia de Jacó” (Nm 24:7), o salmista vislumbrou o Filho do Altíssimo ungido como Rei (Sl 2:6) e Isaías viu o Servo sofredor que morreria em nosso lugar (Is 53:4-6). No entanto, João Batista obteve de Cristo a certeza de que não era mais necessário esperar (Mt 11:3-5). O Messias havia chegado!

Mas surpreendentemente poucos estavam preparados, apesar da clareza das profecias, mesmo quanto ao tempo (Dn 9:24-26) e lugar (Mq 5:2) do nascimento do Messias. As pessoas daquele tempo haviam criado seus próprios “messias”, seus próprios estereótipos de glória, honra, sucesso e poder. E suas expectativas não combinavam com o Homem nascido na manjedoura, outro nome para um cocho. Não havia lugar para um messias que nem a hospedaria queria receber.

Esse é o Messias apresentado por Lucas. O Messias que conhece a pobreza por experiência própria. O início humilde dAquele que fundaria um reino eterno era em si mesmo uma pedra de toque. Seu ministério em grande medida foi voltado aos pobres a quem chamou bem-aventurados (Lc 6:20). Quem não se surpreenderia com um Messias assim? A lista oferecida por Lucas indicando aqueles que estavam preparados para esse grande evento é quase escandalosa: uns poucos pastores e dois idosos. Evidentemente, ela não é exaustiva, mas por sua representação ela pode dizer muito.

A menção dos pastores é surpreendente. Verdadeiramente, o evangelho em Lucas desconsidera os estereótipos sociais e religiosos. Embora ao longo da Bíblia os pastores que cuidavam de rebanhos sejam vistos sob luz favorável7, em geral, para os leitores do evangelho na época eles eram considerados desonestos e impuros, de acordo com os padrões cerimoniais da lei.8 Eles representam os proscritos e pecadores para os quais Jesus veio. Foram os primeiros recebedores das boas-novas (euangelion), termo que aparece onze vezes no Novo Testamento, sendo dez vezes apenas em Lucas. Não obstante, tudo indica que, apesar das aparências, esses eram homens devotos e provavelmente familiarizados com as profecias messiânicas, como os dois personagens seguintes.9

Nada é mencionado sobre Simeão, a não ser sua condição espiritual. Ele foi justo e piedoso, títulos reservados para poucos na literatura bíblica. Contudo, mais importante do que isso, ele vivia “na esperança de que a promessa de Deus se cumpriria”.10 Ele aguardava a consolação de Israel, termo que aparece constantemente em conexão com a obra do Servo do Senhor (Is 40:1; 49:13; 51:3; 57:18; 61:2). Os rabis posteriormente se refeririam ao Messias como Menahem, o Consolador. Importante na descrição é a influência do Espírito Santo sobre ele. O Espírito o impeliu ao templo e o capacitou a ver além das aparências, pois o indefeso bebê daquele humilde casal era o salvador de Israel e fonte de luz para os gentios. As palavras de Simeão demonstram que suas expectativas não estavam distorcidas. Ele revelou uma consciência da missão e obra do Messias que não mais aparece no evangelho de Lucas. Nem mesmo é encontrada em João Batista (Lc 7:19) nem nos discípulos mais íntimos de Cristo até Sua morte.

A última testemunha do nascimento de Cristo em Lucas é a profetisa Ana. Diferentemente de Simeão, muitos detalhes sobre sua identidade são fornecidos, talvez porque, devido à sua conhecida reputação, seu encontro com Jesus seria importante para os leitores daqueles dias. Sua avançada idade (alguns calculam em torno de 105, considerando que tenha se casado aos 14, com mais 7 de casamento e 84 de viuvez) atesta para sua paciência em esperar o cumprimento da redenção de Israel. O silêncio total de Lucas sobre qualquer personagem dignitário na chegada do Messias pode falar ainda mais alto do que a menção dos anônimos pastores ou desses dois idosos.

Conclusão

Algumas verdades saltam aos olhos no início do evangelho de Lucas. Em primeiro lugar, a salvação é uma iniciativa divina. O ser humano depende inteiramente de um poder sobrenatural. O nascimento virginal só confirma esse fato. Em segundo lugar, a iniciativa divina requer uma resposta humana. Às vezes, tal resposta implica perigo, como foi o caso de Maria. Não era incomum em sua época mulheres recorrerem a gestações “divinas” para explicar relações sexuais ilícitas. Em terceiro lugar, a percepção do cumprimento das promessas divinas veio para quem estava pronto a ouvir. Em outras palavras, conhecimento bíblico ou doutrinário sem discernimento espiritual não tem valor. Ambos são necessários. No segundo capítulo de Lucas, os doutores podiam apenas admirar-se da inteligência e das respostas (v. 47) daquele pobre e desconhecido galileu, pois Ele sequer havia frequentado suas escolas. Isso encerra uma importante lição para os que aguardam a consumação das promessas divinas, na segunda vinda de Cristo, e o estabelecimento do reino que Cristo inaugurou: Precisamos de discernimento espiritual para interpretar o tempo em que vivemos. Por fim, não há lugar no evangelho para estereótipos preconceituosos. Não é posição nem tradição que nos tornarão “prontos”, mas nossa ligação com Deus pela guia do Espírito Santo.


Referências:

1. PINK, A. W. Why Four Gospels?. Swengel: Bible Truth Depot, 1921.
2. NICHOL, F. D. (Org.). The Seventh-day Adventist Bible Commentary. Hagerstown: Review and Herald Publishing Association, 1980. p. 664.
3. MARSHALL, I. H. The Gospel of Luke: a commentary on the Greek text. Exeter: Paternoster Press, 1978. p.35.
4. CANALE, Fernando. O princípio cognitivo da teologia cristã: um estudo hermenêutico sobre reveleção e inspiração. Tradução de Neumar de Lima. 1. ed. São Paulo: UNASPRESS, 2011. 
5. WHITE, Ellen G. O Grande Conflito: entre Cristo e Satanás. 43. ed. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2010. p.7-9. 
6. MARSHALL, 1978, p. 35.
7. BOCK, D. L. Luke: 1:1–9:50. v. 1 Grand Rapids: Baker Academic, 1994. p. 213.
8. STEIN, R. H. Luke. v. 24. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1992. p. 108.
9. HENDRIKSEN, W., & KISTEMAKER, S. J. Exposition of the Gospel According to Luke. v. 11. Grand Rapids: Baker Book House, 2001. p.149.

10. BOCK, 1994, p. 238.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Comentários Lição 8 - Esperar pelo Senhor

“Riqueza adquirida por meio de fraudes poderá parecer doce, porque a mente carnal se compraz no êxito, entretanto será amarga ao se refletir sobre ela.”8 Toda pessoa diligente, emprega tanto a previsão quanto o trabalho. Os planos de alguém empreendedor podem criar prosperidade devido ao esforço realizado, enquanto os planos daquele que trabalha apressada e descuidadamente podem fracassar, ainda que venham a ser bons.

Herança. Na antiguidade, um filho poderia ser executado caso transgredisse a lei, “amaldiçoando aos seus pais (Êx 21:17; Lv 20:9). Nesses casos extremos, a pena capital era aplicada. Entretanto, havia vários graus de maldição e rebeldia filial.”9 O mais triste é que um bom lar poderia produzir um preguiçoso, um libertino, ou até mesmo um amaldiçoador dos pais. Na parábola do filho pródigo, (Lc 15:11, 12), “o pedido desse filho foi, no mínimo, desrespeitoso. Especialmente na cultura oriental o pedido do filho equivalia a um ‘desejo de morte’, porque só depois da morte do pai, ele poderia receber sua herança. O pedido partiu o coração do pai, porque a única preocupação desse filho era com a propriedade.”10 Um filho cai em maldição quando falta com o devido respeito aos pais: “A posse antecipada de uma herança no fim não será abençoada” (Pv 20:21). Há um paralelo muito interessante em Provérbios 13:9: “A lâmpada dos perversos se apagará.”

Vingança: Pedro disse: “Ele [Jesus], quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-Se Àquele que julga retamente” (1Pe 2:23). Com base nesse modelo, todo cristão deve resistir a qualquer impulso de vingança, pois o Senhor mesmo já declarou que toda vingança pertence a Ele (Hb 10:30). Assim, o Senhor deixa manifesto que Ele protege os que depositam sua confiança nEle, e transformará em bênçãos todos os ataques dos inimigos. Fazendo isso, o justo, “amontoará brasas vivas sobre a cabeça do inimigo”. Fazendo o bem a ele, possibilitará uma boa amizade e o tornará servo do Senhor (Rm 8:28; Pv 25:22).

Comentários Lição 8 - O teste da vida

Pelo fato de muitos proclamarem a própria bondade, Salomão enumerou muitas características das pessoas bondosas, pacientes e dispostas a suprir as necessidades dos outros. Contudo, precisamos tomar cuidado para que essas obras não sejam apenas exteriores, mas que sejam alicerçadas na Palavra que transforma a vida. Jesus disse: “Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai, que está nos Céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-Me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em Teu nome, e em Teu nome não expelimos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, os que praticais a iniquidade” (Mt 7:21-23). Iniquidade é a tradução de anomia, palavra grega que significa contra a lei. Jesus descreveu pessoas que realizam grandes obras, mas não guardam os mandamentos de Deus. “Precisamos fazer estas coisas sem omitir aquelas” (Mt 23:23).

O verdadeiro cristão realiza boas obras não para ter méritos próprios, mas porque ama a Deus e sua gratidão transborda em atos de amor pelo semelhante. Sua vida é um bálsamo para o sedento. O temor do Senhor, a sabedoria, verdade e integridade dos justos são mais aceitáveis ao Senhor do que sacrifícios. As obras bondosas são consequências (Pv 9:10; 20:7; 21:3). O justo realiza boas obras não para ser salvo, mas porque já encontrou a salvação.

“Em cada ação está a demonstração da ‘hesed’, palavra hebraica que significa ‘bondade’, ‘amabilidade’, [...], evidenciando de que lado do grande conflito o justo escolheu ‘fincar’ sua bandeira.”7 Isso serve para mostrar que nos mínimos detalhes as obras testificam quem é o Senhor e comandante da vida.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Comentários Lição 7 – Dois lados de uma história

O insensato não é discípulo de Cristo e não usa as declarações de sabedoria que promovem e interpretam a lei de Deus. O insensato não segue as regras da escola da sabedoria, e como um louco não tem prazer no discernimento. Apresenta as próprias compreensões, o próprio conjunto de prazeres (mentais e físicos), os quais compõem sua vida, e não a lei. Parte de seu prazer é exibir sua ignorância. É um insensato quem gosta de dar espetáculos, sendo que da sua boca procede a insensatez (Pv 15:2). Caso ele se calasse, os outros o confundiriam com um sábio (comparar com Pv 17:28). Esse tipo de pessoa se interessa apenas pelo tipo de sabedoria que promove os próprios desejos, ou, se tem algo digno para dizer, o faz somente com propósitos de exibição e ostentação, conforme Provérbios 26:1, 3-12.

Em qualquer tipo de argumentação, aquele que tem a primeira oportunidade de declarar seu caso está em vantagem. Entretanto, qualquer argumento precisa ser examinado em profundidade. As pessoas sempre apresentam argumentos da maneira que melhor serve os próprios interesses, ou aos interesses de seus grupos. Os modernos sistemas jurídicos proveem advogados de acusação e defesa, para garantir julgamentos mais justos. Nos tribunais antigos, os hebreus tentavam obter idêntico equilíbrio mediante emprego de testemunhas favoráveis e contrárias. Mas todos os sistemas são imperfeitos, pois, algumas vezes, um homem culpado sai livre, ao passo que um inocente é condenado. Erasmo de Roterdã insistia na livre investigação de todas as questões. Deve haver audição e investigação a fim de considerar outros pontos de vista, e não simplesmente para acumular mais evidências para aquilo que acreditamos ser a verdade.
Uma pessoa sensata escuta os que têm opinião contrária à sua para formular um melhor juízo sobre si mesmo e a causa a ser deliberada. Em um ambiente moderno e extremamente competitivo como o atual, muitos têm atuado como o insensato.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Comentários Lição 7 – Palavras, novamente

“Palavras, palavras, nada senão palavras”

“Ele é apenas um falador.” Declarações como essas depreciam a importância da fala. Porém, há alguma coisa no mundo mais potente para o bem ou para o mal do que as palavras? A fala é sinal de personalidade. A autoconsciência se manifesta somente na fala. O pensamento é expresso pelas palavras, as quais representam ideias. As ações são precedidas de pensamentos, assim como os relâmpagos antecedem os trovões.

As palavras ou a ausência delas podem exercer um papel especial na solução ou na origem de contendas, pois refletem o discernimento de alguém em relação às situações que as envolvem. Por meio das palavras, pessoas buscam inspiração para cada circunstância, líderes motivam liderados para a obtenção de resultados expressivos, governantes fundamentam seus projetos audaciosos, enfermos recebem auxílio psicológico para vencer as doenças, e muitos edificam relacionamentos sólidos.

A Nova Tradução na Linguagem de Hoje traduz Provérbios 18:13 da seguinte maneira: “Quem responde antes de ouvir mostra que é tolo e passa vergonha.”

Grande ênfase é dada ao ato de ouvir, pois dessa ação resultam respostas mediante palavras proferidas. Ouvir nesse contexto se relaciona à compreensão, ou seja, uma comunicação em que as partes se entendam e consigam ir na mesma direção. Mas, de forma egoísta, há pessoas que não estão interessadas em ouvir os outros, pois querem apenas que os outros ouçam suas  palavras de vaidade e insensatez. Seus discursos servem apenas para aumentar a confusão, e não trazem nenhuma iluminação nem discernimento sobre os assuntos analisados. Há aproximadamente cem provérbios que descrevem especificamente o uso próprio e impróprio da linguagem.
A ansiedade e o engano nos impedem de ouvir. Como consequência, ocorre a exposição da pessoa à vergonha, pois as palavras de alguém são fruto de seu pensamento. Contendas são geradas e os relacionamentos não demonstram o plano de Deus para a vida das pessoas. Sempre haverá uma “colheita” no uso apropriado ou inapropriado da fala. Pode haver uma colheita boa quando as palavras produzem o bem para aquele que fala, bem como para o ouvinte, ou, pode haver uma colheita amarga e venenosa. Nesse caso, tais palavras produzem o mal tanto para o que fala como para o ouvinte.

A língua pode ser usada tanto para abençoar quanto para amaldiçoar, pode dar vida e pode matar, pode curar ou pode ferir. Falar demais envolve transgressão. Em Provérbios 10:19, o falar precipitado pode causar dano. O silêncio é elogiável, especialmente o silêncio de um homem insensato, que se torna temporariamente sábio por manter a boca fechada (Pv 17:28). Uma resposta branda pode aquietar águas agitadas (Pv 15:1).

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Comentários Lição 7 – Seja justo

A palavra hebraica “tsedeq” é traduzida como “justiça”, “direito”, “honra” e “inocência”. Revela as características de conduta que deveriam existir entre os homens, incluindo um rei em relação aos súditos e um senhor em relação aos servos. Essa palavra exalta de forma acentuada determinados comportamentos humanos e divinos, e também representa o poder que um homem honrado adquire por suas ações e que pode ser expresso, inclusive, na qualidade do que é oferecido por ele (produtos, relacionamentos, entre outros). Koch menciona que a preocupação do autor do livro é apresentar a relação individual entre a boa ação e a salvação, e sua correspondência entre o pecado e a ruína.

Onde há a verdadeira justiça também há amor, com o intuito de promover reconciliação entre as pessoas. É nesse sentido que uma simples reprimenda tem maior efeito no prudente e sábio, pois consegue alcançar sua “mente e coração”, enquanto no insensato nem mesmo um castigo físico o faria reconhecer os erros e abandoná-los. É interessante perceber que em Deuteronômio 25:2, 3 são estipulados quarenta açoites ao infrator, e não mais que isso. Em Provérbios 17:10 utilizam-se cem açoites. Os eruditos entendem isso como uma hipérbole oriental (exagero), do contrário seria uma contradição ao preceito divino anterior.

Não deve ser esquecido que uma repreensão amável consegue produzir excelentes resultados nas pessoas de entendimento, e contribui na construção de relacionamentos sólidos e harmoniosos, acabando com as dificuldades que provocam contendas. Um exemplo muito especial de alguém repreendida com amor e que foi transformada, é o da mulher adúltera de João 8:1-11. Jesus poderia ter atirado a pedra, pois Ele não tinha pecado, mas estava mais preocupado com a reabilitação do pecador do que em ver a lei meticulosamente satisfeita. Aquele que sonda os corações viu que havia arrependimento no coração da mulher. Tudo o que era preciso era uma advertência para o futuro. Esse acontecimento apresenta algumas lições:

(1) Jesus, o Justo, mostra que apenas o homem livre de falta tem o direito de manifestar juízo sobre a falta de outros. A própria realidade da situação humana significa que Deus é o único que tem o direito de julgar, pela simples razão de que nenhum homem é suficientemente bom para julgar outro homem.

(2) Jesus, o Justo, sustenta que o primeiro sentimento para com o pecador deve ser a misericórdia. Devemos oferecer aos outros a mesma compaixão que gostaríamos que nos oferecessem se nos encontrássemos em uma situação similar.

(3) Jesus, o Justo, oferece perdão e reconciliação. Seguir Seu exemplo deve ser uma constante na vida dos Seus seguidores.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Comentário Lição 7 - Domingo, 8 de fevereiro – O pecado e os amigos

Mudança nenhuma das circunstâncias externas deve abater nosso afeto pelos que estão ao redor, especialmente os mais próximos, os familiares. Entretanto, é bom lembrar que nenhum amigo, salvo Cristo, merece confiança ilimitada. Ao escrever aos coríntios, o apóstolo Paulo mencionou que o amor deve ser paciente. A palavra utilizada em grego é “makrothumein”, que descreve a paciência com as pessoas e não com as circunstâncias. Crisóstomo declarou que essa é a palavra que se usa acerca do homem que foi afrontado e que, tendo poder para se vingar facilmente, não o faz. Descreve o homem lento para se irritar. Utiliza-se para se referir ao próprio Deus em Sua relação com os homens. Ao lidar com os seres humanos, por mais rebeldes, desumanos e cruéis que sejam, devemos exercer a mesma paciência que Deus tem para conosco, e amá-los como a nós mesmos” (Lc 10:27).

A raiz da palavra hebraica “kasah”, é utilizada tanto em Provérbios 17:9 quanto no Salmo 85:2, demonstrando que as palavras “cobrir”, “ocultar”, “encobrir” e “enterrar” estão relacionadas ao perdão, fruto de uma expiação ocorrida no coração, oferecendo amor e buscando amor da parte do próximo. Nesse sentido, há a esperança de que outras pessoas se mostrem caridosas. Provérbios 10:12 diz: “O amor cobre todas as transgressões.” O homem que sai espalhando para todos que foi ofendido, separa amigos e estraga a vida da comunidade. Esse tipo de difamação é condenada, pois se limita apenas a espalhar antigas queixas, repetindo a outros alguma transgressão que já deveria ter sido perdoada, como demonstração do amor fraternal que nos une e dá certeza de que o Pai celestial também nos perdoa e não nos difama.